Por Eça de Queirós (1878)
Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se à janela, pôs-se a sacudir as duras folhas de uma begônia malhada de um vermelho doente, com uma baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo ocupado em conchegar um botão de amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino coração assustado.
Luísa ia passando o seu medalhão de ouro numa longa fita de veludo preto, tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.
- O calor tem-lhes feito mal... - disse.
Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi à outra janela, bateu com os dedos nas folhas elásticas de uma macoma de tons verdes e sangüíneos, e, alargando impacientemente o colarinho como um homem sufocado:
- Ouve lá, é necessário que deixes por uma vez de receber essa criatura. É necessário acabarpor uma vez!
Luísa fez-se escarlate.
- É por causa de ti! É por causa dos vizinhos! É por causa da decência!
- Mas foi a Juliana... - balbuciou Luísa.
- Mandasse-a sair outra vez. Que estavas fora! Que estavas na China! Que estavas doente!
Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:
- Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebrais! É a Pão e Queijo! É umavergonha!
Citava-lhe os seus amantes, exasperado: o Carlos Viegas, o magro, de bigode caído, que escrevia comédias para o Ginásio! O Santos Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um gingão desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar numa enorme boquilha! O Pedro Câmara, o bonito! O Mendonça dos calos! Tutti quanti!
E encolhendo os ombros, exasperado:
- Como se eu não percebesse que ela esteve aqui! Só pelo cheiro! Este horrível cheiro de feno! Vocês foram criadas juntas, etc.; tudo isso é muito bom. Hás de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!
Parou um momento, e comovido:
- Ora, vamos, Luísa, confessa. Tenho ou não razão?
Luísa punha os brincos, ao espelho, atarantada:
- Tens - disse.
- Ah! Bem!
E saiu, furioso.
Luísa ficou imóvel. Uma lagrimazinha redonda, clara, rolava-lhe pela asa do nariz Assoou-se muito doloridamente. Aquela Juliana! Aquela bisbilhoteira! De má! Para fazer cizânia!
Veio-lhe então uma cólera. Foi ao quarto dos engomados, atirou com a porta:
- Para que foi você dizer quem esteve ou quem deixou de estar?
Juliana, muito surpreendida, pousou o ferro:
- Pensei que não era segredo, minha senhora.
- Está claro que não! Tola! Quem lhe diz que era segredo? E para que mandou entrar? Não lhetenho dito muitas vezes que não recebo a senhora D. Leopoldina?
- A senhora nunca me disse nada - replicou, toda ofendida, cheia de verdade.
- Mente! Cale-se!
Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se à vidraça.
O sol desaparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento; pelas casas, de uma edificação velha, escuras estavam abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miserável, manjericão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancólico de um piano, a Oração de uma virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janela, defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito riçados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a rua, para o ar, para as janelas vizinhas, cochichando se viam passar um homem - ou debruçadas, com uma atenção idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da calçada.
Jorge tinha razão, coitado! pensava Luísa. Mas, também, que podia ela fazer? Já não ia à casa de Leopoldina, tirara o seu retrato do álbum da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnância de Jorge, tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E enfim, depois de ela estar na sala, não a havia de ir empurrar pela escada abaixo!
Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, apareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, pôs-se a voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um sorriso triste de dentes brancos e a "Casta Diva", com uma sonoridade metálica e seca, muito tremida espalhou-se pela rua.
Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de Matemática, veio encostar logo aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta de um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe de chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraramse entre as bambinelas de cassa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.