Por Eça de Queirós (1870)
Com a violência dos seus gestos, um dos mascarados riu.- Ah! Os senhores escarnecem! — gritou F... E arremessando-se violentamente contra a janela, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre e le, curvaram-no, arrastaram-no até umapoltrona, e deixaram-no cair, ofegante, trémulo de desespero.
Eu tinha ficado sentado e impassível.- Meus senhores — observei -, notem que enquanto o meu amigo protesta pela cólera, eu protesto pelo tédio.E acendi um charuto.
— Mas, com os diabos! tomam-nos por assassinos! — gritou um violentamente. — Não se crê na honra, na palavra de um ho mem! Se vocês não tiram a máscara, tiro-a eu! É necessário que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar porum assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem.
E fez um gesto furioso. Neste movimento, a máscara desaper tou-se, descaindo. Ele voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instintivo,irreflectido, de de sesperação. Os outros cercaram-no, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassível. Um dos mascarados, que não ti nha ainda falado, o que nacarruagem viera defronte de mim, a to do o momento observava o meu amigo com r eceio, com suspeita. Houve um longo silêncio. Os mascarados, a um canto, falavam bai xo. Eu, no entanto, examinava a sala.Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete mo le, espesso, bom para correr com os pés nus. O estofo dos móveis era de seda vermelha com uma barra verde,única e transversal, como têm na antiga heráldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janelas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jas pe, e um aroma tépido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala.O homem que estava morto era moço, de perfil simpático e fino, de bigode louro.
Tinha o casaco e colete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de pérolas;a calça era estreita, bem talhada, de uma cor clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.
Pela fisionomia, pela construção, pelo corte e cor do cabelo, aquele homem pareciainglês.
Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidado samente corrido. Pareciame ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, de um aroma que andavano ar uma sensação tépida que dão todos os lugares onde ordinariamente se es tá, se fala e se vive, aquele quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira,umas luvas caídas, alguma destas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviais.
F... tinha-se aproximado de mim.- Conheceste aquele a quem caiu a máscara? — perguntei.
— Não. Conheceste?- Também não. Há um que ainda não falou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.
Um dos mascarados aproximou-se, perguntando:- Quanto tempo pode ficar o corpo assim nesta chaise-longue? Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento co lérico, mas conteve-se. Neste momento omascarado mais alto, que tinha saído, entrara, dizendo para os outros:
— Pronto!... Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pêndula e os passos de F..., que passeavaagitado, como sobrolho duro, torcendo o bigode.
— Meus senhores — continuou voltando-se para nós o mas carado -, damos-lhe a nossapalavra de honra que somos com pletamente estranhos a este sucesso. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Ima ginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quiserem. Imaginem que estão aqui pelaviolência, pela corrupção, pela astúcia, ou pela força da lei... como entenderem! o fac to é que ficam até amanhã. O seu quarto — disse-me — é naquela alcova, e o seu — apontou paraF... — lá dentro. Eu fico consigo, doutor, neste sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Amanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte à polícia ou escrever para os jornais.
Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquilida de. Não respondemos. Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. Numadas voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto de uma poltrona, uma coisa branca semelhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objectocaído. Era efectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com gran de delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e umacoroa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.