Por Eça de Queirós (1925)
E a esta idéia, do outro a resolução voltara-lhe, uma energia, vaga, ainda bastante para que se erguesse, continuasse o seu caminho... Sim , o outro ficaria bem contente, se ele desaparecesse essa noite. Sentiria um completo alívio. Um ou dois dias mostrar-se-ía pesaroso, talvez se sentisse realmente perturbado. Mas depois continuaria a vida: a firma seria Machado & Cia; ele continuaria a ter amantes, a ir ao teatro, a pôr cera moustache no bigode. Isto não era justo. Fora o outro que causara a ruína duma bela felicidade, era ele que devia morrer. Era o Machado que devia desaparecer; era ele que devia matar. Isso seria mais justo. E as coisas seriam o contrário: a firma continuaria a ser Alves & Cia., e ele poderia mais tarde reconciliar-se com sua mulher, e a vida seguiria, resignada e calma. Era assim que devia ser. Deus, olhando para um, olhando para o outro, medindo os méritos e as culpas de cada um, devia fazer desaparecer o Machado, inspirar-lhe a ele a idéia do suicídio.
E então, destas duas absurdas imaginações que se balançavam no espírito perturbado – o seu suicídio, o suicídio do outro - , uma idéia surgiu, como faísca viva de entre duas nuvens pesadas, uma idéia nítida em todos os seus detalhes, que lhe pareceu justa, realizável, a mais conveniente, a única digna...
Mas nesse momento, alguma coisa de familiar, nas casas junto das quais caminhava, fez-lhe sentir que estava junto da sua porta. Parou, todo tomado pela idéia de Ludovina, olhou a casa. Com o seu bico de gás defronte, ela punha entre os dois altos prédios, a decência da sua fachada asseada, e pintada de azul, com persianas verdes. No seu andar não havia luz alguma: o porão estava cerrado. Estaria ela ainda lá? Teria o pai vindo buscá-la? E uma angústia terrível fazia-lhe bater o coração. Um momento desejou que ela lá estivesse, pensou em perdoar, tanto aquela casa vazia o aterrava. Mas depois sentiu, que diante dela daí por diante, seria frio, constrangido; não, melhor que nunca mais se vissem. Então uma curiosidade levou-o à casa do sogro, ao fim da rua. Aí era um alto prédio, desleixado, sujo. No terceiro andar do sogro, as janelas abertas respiravam a frescura da noite, e também não havia luz. Nenhuma daquelas fachadas lhe respondia, o tirava de inquietação.
Então voltou à casa, empurrou o portão. A escada tapetada dormia na luz quente do bico de gás: e o som abafado dos seus passos parecia-lhe repercutir-se num lugar deserto e côncavo. Do segundo andar vinha, como vago e religioso, um som de piano, uma coisa do Fausto. A gente de cima era feliz, tocava piano.
A cozinheira veio abrir – e o quer que fosse no seu modo revelou logo ao Godofredo que Ludovina partira.
Na sala de jantar, sobre o oleado da mesa ardia uma vela. Ele tomou-a, entrou no quarto de dormir – viu logo duas malas fechadas e um baú.
Mas havia ainda objetos dela: junto da cama estavam as suas chinelinhas, sobre a chaise-longue o chambre branco que ela trazia essa manhã. E outras coisas tinham sido já guardadas – os frascos de cristal do toucador que eram dela, e uma Nossa Senhora de madeira, em que ela tinha devoção Ele pousou a vela sobre o toucador – e o seu rosto apareceu-lhe pálido, envelhecido, olhando para ele com um ar de ruína e de abandono.
Tomou a vela, foi à sala de visitas. Aí ficara um ar de catástrofe. A pele de raposa estava enrolada para um lado, sobre a mesa junto do sofá, ainda estava a garrafa de vinho do Porto, e à borda uma ponta apagada do charuto do outro. E diante daquela ponta do charuto, uma raiva surda invadiu-o, pareceu-lhe sentir-se esbofeteado pôr uma mão de ferro, teve o estremecimento dum insulto maior, e jurou ser de bronze, nunca mais perdoar, mandar-lhe ele mesmo as malas embora, e ver o outro morto aos seus pés, ou morrer ele também.
Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e inquietação. Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa retomasse o seu ar regular e calmo. Ela partira, as suas malas partiriam nessa noite. Daí pôr diante era um viúvo: mas o andamento da casa continuaria, com ordem e serenamente.
Gritou logo pôr Margarida.
— Então hoje não se janta nesta casa. São estas horas, e a mesa não está posta?
A criatura olhou para ele, como espantada de que ele quisesse jantar, ou de que se tornasse a jantar naquela casa. Ia decerto dizer alguma coisa: mas ele olhoua dum modo tão firme, que ela saiu de esguelha – e daí a um momento punha a mesa, apressando-se, mostrando zelo, como se quisesse fazer-se perdoar a sua vaga cumplicidade. E pôs na mesa tudo o que continha o cesto – o empadão, o fiambre, a torta de fruta.
Godofredo no entanto fora para o seu gabinete. Agora aquela idéia que o atravessara bruscamente ao recolher do passeio, a solução que lhe parecia ser a única possível, voltava, estabelecendo-se-lhe no espírito, tornando-se agora o centro de toda a sua atividade interior. E era isto, tirarem à sorte, ele e o outro, qual deles se devia matar!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.