Por Aluísio Azevedo (1880)
Era a sede formidável de luz e de brilho, de admiração e de inveja! A febre de aparecer e ofuscar! O direito da beleza e a impaciência do ouro!
Vaidade! Vaidade grosseira da matéria! Que supõe desperdício esquecer na ostra singela e honesta a jóia digna de se corromper na cabeça de um rei!
Vai, criança sonhadora! E que te hajas tão ditosa que para ti Nápoles seja somente o que o diadema de uma princesa é para uma pérola.
Porém Miguel?! O querido namorado de Rosalina!?...
Oh! Que imprudência... lembrar uma lágrima, quando se trata de todo um futuro de prazeres e galas!
Quem se importa da pétala da rosa, que o trem faustoso do rico, ao passar altivo, esmagou no caminho?!
Todavia, Miguel era um ponto sensível e doloroso no coração da moça ambiciosa. A despeito de tudo, ela ainda o amava, e, no meio dos sonhos de grandeza, tinha para o pobre artista um suspiro de amor e saudade, ainda o via, no fundo brilhante do seu quadro de irradiações e alegrias, sombrio, triste, meio espectro, meio homem, a chorar talvez, com certeza a sofrer. Via-o ela esbelto e delicado, contra a luz das suas esperanças, e sentia-se projetar-se no disco irado de seu coração a sombra negra desse vulto querido.
Não há felicidade, por mais completa, que não ressinta de uma mancha ao menos!
Todo e qualquer obstáculo, por mais mesquinho e miserável que seja, produz uma sombra relativa.
Subtraiam todos os mundos, todos! Que o firmamento fique um nada infinito. Então deixem brilhar unicamente o sol, isolado e egoísta. Só ele! e a sua luz a perder-se pelo nada.
Não se pode certamente julgar mais completa e inteira luz; pois bem, tragam depois um grão de areia, só um! coloquem-no defronte do sol e será perturbada essa imensa pureza de luz! Um mesquinho grão de areia contra a enormidade da luz do sol! Todavia, o grão de areia será uma sombra!
Assim também grande e cheia era a taça de néctar, que Maffei entregara à filha, porém nessa taça havia uma gota de fel: era o amor do artista.
A fortuna passara a cobrir Rosalina de beijos, porém nesse aluvião de carícias foi de envolta uma arranhadura.
Pobre Rosalina!
E neste vacilar, entre a felicidade e a dor, entre o bem e o mal, escrevera a Miguel uma carta, contando-lhe, com honesta franqueza, o que se passara, e prometendo-lhe uma entrevista, às ocultas do pai.
O rapaz ficou fulminado ao receber a notícia; entretanto, sofreu todas essas coisas afetando a mais indiferente tranqüilidade. Exteriormente, parecia no seu estado normal de tristeza e inteligência, e contudo não conseguiria, se o tentasse, ligar duas idéias.
Tinha a lucidez no olhar, porém, as trevas no cérebro!
De queixas, nem vestígios!
De resignação - todos os sintomas!
Depois da chegada do pescador, o músico nem cuidava de si; esquecera obrigações e talento!
Coitado! Sem família, sem um amigo ao menos, um companheiro com quem dividisse fraternalmente o seu infortúnio, sofria, o desgraçado, essa dor ignorada, que só tem uma expressão — a lágrima; só sabe um caminho — o do túmulo!
CAPÍTULO XI
A casinha branca ficava situada em um dos extremos da ilha, para as bandas do nascente.
Era um ponto magnífico.
A modesta e simpática vivenda olhava de frente, podemos dizer, sorrindo, para a estrada que conduzia ao centro povoado da ilha; do mundo, saía-lhe correndo, em distância de seiscentos passos, a nossa já conhecida alameda de oliveiras, cujo solo formava um declive suave e fértil, plantado de ambos os lados, com variedade e gosto, até onde o terreno ia pouco a pouco se tornando mais íngreme com a vizinhança do mar.
Então, principiava uma ladeira pedregosa, que ia acabar, em grande distância, numa ampla e formosa praia, de areias claras e batidas livremente pelos ventos.
Do lado direito, avizinhava-se o mar, entre o qual e a casa, interpunha-se somente uma clareira, onde Rosalina costumava sentar-se à tarde, e uma moita de espinheiros, espécie de cerca natural, que ali entrelaçara a natureza, para servir de ameias, que resguardassem as bordas perigosíssimas deste lado.
Do esquerdo, o espaço entre o mar e a casa era desproporcionalmente maior, porém menos cultivado e coberto de uma vegetação enfezada e má. Por entre esse mato, nascia uma picada, tão irregular e confusa, e tão dificultada pelos abrolhos e sarças, que quase não se deixava perceber; e tanto mais ingrato era o solo, quanto mais se afastava da casa.
Perto desta era a terra cultivável e solta, mais ia gradualmente e tornando calcífera até chegar ao estado de pedra, à proporção que se aproximava das bordas da ilha, terminado por um pedregulho alcantilado, inteiramente liso e escorregadio, pelo salpicar constante do pó úmido das vagas, que se despedaçam contra ele.
A rocha ficava a pique sobre o mar, um precipício medonho!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.