Por Eça de Queirós (1870)
Era um frasco de cristal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmelnessa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam expli car-me a sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham real mente da verdade do seu coração? Era uma retórica artificial à flor dos lábios, enganadora, como um pano de teatro? Não o sabia: só ascartas dela mo poderiam revelar, e ele tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha infelicidadeinsondável, ou a imensa pacificação do meu futuro! Podia porventura hesitar? — Ele falava no entanto. Eu tremia toda. Olhava fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé de uma garrafa de cristal da Boémia. O reposteiro da alcova achava-se corrido: dentro estava escuro. Betty tinha ido comigo, e ficara num quarto distante, que da va para uns terrenos vagos...- E se houvesse um desastre! — pensei eu de repente. — Não há pessoas que sucumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no túmulo?
Mas eu via sempre a saliência da carteira, que me tentava co mo uma coisaresplandecente e viva. Podia aproximar-me dele de repente, enfraquecê-lo ao calor das minhas palavras, ir levemen te, astuciosamente, arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu coupé, e fugir. Mas se ele resistisse? Se perdesse a consciência dasua dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?Não podia ser. Era necessário que dormisse tranquilamente! Se as cartas fossem inocentes, simples, inexpressivas, como eu ajoelharia depois, ao pé do seu corpoadormecido, como esperaria com uma ânsia feliz que ele acordasse! Que aurora sublime acharia ele nos meus olhos quando os seus se abrissem! Mas se houves se nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com água. Be bia aos pequenos golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de achar um momentomeu, bastante para deitar duas gotas de ópio no copo.
Tive um expediente trivial, estúpido. — Rytmel — disse eu, como num teatro, como nas comédias de Scribe, com uma vozimbecilmente risonha -, vá dizer a Betty, que pode ir, se quiser. A pobre criatura dormiu pouco, está doente.
Ele saiu; ergui-me. Mas ao aproximar-me da mesa, defronte do copo, fiquei hirta,suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessário, eu tinha-o ouvido falar, voltava, sentia-lhe os passos, iaentrar... Tirei o frasco, e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvaziei-o no copo.
Ele entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula, em suor frio, e, não seiporquê, sentindo uma infinita ternura, dis se-lhe sorrindo, e quase chorando:
— Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.Ele sorriu. E — meu Deus! — aproximou-se, creio que sorriu, e tomou o copo! E com o copo na mão:
— E sabe — disse ele — que ninguém o crê mais do que eu!... Se não fosse o teu amorcomo poderia eu viver?
E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da água,parecia-me vagamente esverdeada. Via as cintilações do cristal facetado. Finalmente bebeu! ...Desde esse momento fiquei num terror. Se ele morresse? Meu Deus, porquê? Não sedá ópio às crianças, aos doentes? Não é ele a clemente pacificação das dores? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua amiga, tão terna com ele, para me absol verdaquela aventura imprudente! Ainda que seja culpado, amá-lo-ei! pensava eu. Pobre dele! Não lhe bastava ter de dormir as sim forçadamente num sono pesado e cruel? Amá-lo-ia, culpado. Traída, amá-loia ainda!Ele, entretanto, estava calado, no sofá, com a cabeça encosta da. De repente pareceume vê-lo empalidecer, ter uma ânsia, sor rir. Não sei o que houve então. Não me lembra sefalámos, se ele adormeceu brandamente, se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.
Achei-me ajoelhada ao pé dele. Devia ser meia-noite. Estava imóvel, deitado no sofá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o lívido, não me atrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto numa distracção idiota. Cobri-o com uma manta. — Vai acordar — dizia eu maquinalmente. Compus-lhe os cabelos ligeiramente desmanchados. De re pente a ideia da morteapareceu-me nítida e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de todas as coisas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura...
— Rytmel! Rytmel!E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei, olhei-o avidamente, precipitei-me sobre o corpo dele, gritando sufocada:- Rytmel! Rytmel!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.