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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Paulo convidou Ritinha para ver o quarto, ela devia querer ficar a gosto.

Levou-a à sala e, ligeiramente, atirando-lhe os braços ao pescoço, rosto contra rosto, perguntou:

— Então?

— Parece uma boa criatura.

E na sombra uniram as bocas demoradamente.

Instalando-se no quarto de Paulo, Ritinha pôs-se logo à vontade e, cheia de solicitude, muito carinhosa com a enferma, insistiu com ela para que tomasse alguma coisa: um pouco de chá, ao menos.

Dona Júlia cedeu ao carinho e a mulata entrou na despensa, acompanhada de Paulo, que fazia empenho em que ela tudo visse. Abria latas, pacotes, com uma grande vaidade de dono de casa a exibir a abundância. Foram à cozinha. A um canto, encolhida, Felícia resmungava como um animal medroso. Os seus olhos luziam na sombra, de quando em quando um suspiro subia-lhe do peito. Arrepanhava os molambos, fazia-se humilde, chegava-se à parede como se procurasse refúgio.

— Esta é que é a maluca? — perguntou Ritinha inclinando-se, com a vela muito chegada ao rosto da negra.

— É. Um diabo que só nos dá trabalho. É até capaz de morrer aqui. Não come, nem sei como vive. A noite é um horror.

— Coitada!

— Coitada!? Hás de ver logo mais: grita, sapateia, chora.

Ritinha pôs-se a acender o fogo juntando gravetos, Paulo ajudava e, passando por ela, sem importar-se com a louca que os olhava, beliscava-a, atiravalhe beijos à nuca, emprazando-a para a noite alta, quando a velha dormisse.

— Olhe lá! não comece com imprudências. Eu não quero histórias comigo.

— Quê! pensas que eu hei de dormir sozinho tendo-te aqui em casa, minha, minha só?...

Num frenesi lúbrico agarrou-a, levantou-a nos braços e a sombra dos dois corpos enlaçados tremia nos muros negros da cozinha fuliginosa. Felícia foi-se arrastando, meteu-se debaixo da pia, sem sentir a umidade, ficou a olhar assombrada. Dona Júlia chamou:

— Paulo!

— Senhora!

— Dá-me um bocadinho d'água.

Ele foi pronto em servi-la. Depois de beber, a enferma perguntou:

— Que estás fazendo lá dentro?

— Fui mostrar a despensa, a cozinha.

Sentou-se e, meigo, perguntou:

— Então, que lhe parece?

A velha não respondeu; ele continuou:

— É uma excelente criatura e a senhora não imagina o que ela sofre do Mamede.

— Por quê?

— Ora! Não lhe dá vintém. Tudo quanto ganha é para o jogo; e ela, a bem dizer, quem sustenta a casa com o que faz lavando e engomando. A senhora há de gostar dela. Eu já lhe disse que vou tomar uma criada para o serviço pesado. Ela fica apenas para fazer-lhe companhia.

— E Violante? perguntou Dona Júlia.

— Que tem?

— Não tens tido notícias?

— Não. Talvez vá vê-la amanhã. Quer que ela venha cá?

— Sinto-me tão mal, esta falta de ar...

— Isso passa. É questão de dias. Foi uma felicidade acharmos esta moça, porque a senhora não imagina como ando agora cheio de trabalho. Se for feliz, como espero, em certos negócios em que me meti, talvez faça exame em março. Tudo depende de tranqüilidade.

Ritinha apareceu à porta perguntando onde estava o pão. Paulo precipitouse, abriu o guarda-comida, solícito:

— Quer umas torradas, mamãe?

— Umas duas, não tenho fome.

A mulata tornou à cozinha. Pouco depois aparecia com a bandeja e, acendendo o gás no quarto, ficaram os dois juntos à enferma, vendo-a comer, animando-a. Distraíram-se em conversa. Ritinha a falar de uma moléstia que também a martirizara durante meses. Andara nas mãos de um bando de médicos e ficara boa com remédios caseiros.

— A gente não acredita, mas a verdade é que não é um caso nem dois, quantos!?

— Mas a minha moléstia não tem cura. Não imagina como estou inchada e esta aflição que me mata. As vezes, de noite, fico sem ar, levanto-me, abro as janelas. É uma agonia que só Deus sabe! Dizem que é o coração, não sei.

Palmas estrondaram na sala. Paulo saiu precipitadamente do quarto e, chegando ao corredor, viu a porta da rua escancarada e um vulto branco de pé no limiar: era a vizinha.

— A sua criada saiu correndo e deixou a porta aberta. Foi lá para baixo, atirando murros, desesperada.

— Há muito tempo?

— Não, senhor. Agora mesmo. Parece que ela não está muito boa da cabeça.

— Está perdida. Nós conservamo-la aqui por pena.

— Vai por aí à toa. São até capazes de prendê-la.

— Isso com certeza.

— Bom. Boa noite.

— Muito obrigado. Entrou, fechou a porta, exclamando: Melhor!

Reaparecendo no quarto, deu logo a notícia de chofre: Felícia fugiu.

— Como? perguntou a enferma, emocionada.

— Sei lá. Foi a vizinha que bateu, porque a maluca deixou a porta escancarada.

— E agora, meu filho! — exclamou Dona Júlia de mãos postas.

— Agora o quê, mamãe?

(continua...)

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