Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Maçaranduba é outra árvore real, de cujo fruto já fica dito atrás; são naturais estas árvores da vizinhança do mar; e acham-se muitas de trinta a quarenta palmos de roda, de que se fazem gangorras, mesas, eixos, fusos, virgem, esteios e outras obras dos engenhos, cuja madeira é de cor de carne de presunto, e tão dura de lavrar que não há ferramenta que lhe espere, e tão pesada que se vai ao fundo. Estas árvores são tão compridas e direitas que se aproveitam do grosso delas de cem palmos para cima, e nunca se corrompem. Há outra árvore real que se chama jataí-mondé, que não é tamanha como as de cima, mas de honesta grandura, de que se fazem eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos, cuja madeira é amarela, de cor formosa, muito rija e doce de lavrar e incorruptível; e é tão pesada que vai ao fundo; e não se dá em ruim terra.Nas várzeas de areia se dão outras árvores reais, a que os índios chamam curuá, as quais se parecem na feição, na folha, na cor da madeira, com carvalhos; e acham-se alguns de vinte e cinco a trinta palmos de roda, de que se fazem gangorras, mesas, eixos, virgens, esteios e outras obras miúdas; mas não é muito fixo ao longo da terra; a qual também serve para liames de navios e barcos e para tabuado; e de pesado se vai ao fundo.Há outras árvores reais, a que os portugueses chamam angelina, e os índios andurababapari, as quais são muito grandes e acham-se muitas de mais de vinte palmos de roda, de que fazem gangorras, mesas, eixos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos e das casas de vivenda, e boas caixas por ser madeira leve e boa de lavrar, e honesta cor.Jequitibá é outra árvore real, façanhosa na grossura e comprimento, de que se fazem gangorras, mesas dos engenhos e outras obras, e muito tabuado; e já se cortou árvore destas tão compridas e grossa, que deu no comprimento e grossura duas gangorras, que cada uma pelo menos há de ter cincoenta palmos de comprido, quatro de assento e cinco de alto. Esta madeira tem a cor brancacenta, é leve e pouco durável, onde lhe chove; não se dão estas árvores em ruim terra.Ubiraém é outra árvore real de que se acham muitas de vinte palmos de roda para cima, de que se fazem gangorras, mesas, virgens, esteios dos engenhos e tabuado para navios, e outras obras, cuja cor é amarelaça; não muito pesada, e boa de lavrar.Pelas campinas e terra fraca se criam muitas árvores, que se chamam sepepiras, que em certo tempo se enchem de flor como de pessegueiro; não são árvores muito façanhosas na grandura, por serem desordenadas nos troncos, mas tiram-se delas virgens, esteios e fusos para os engenhos; a madeira é parda e muito rija, e tão liada que nunca fende; e para liação de navios e barcos é a melhor que há no mundo, que sofre melhor o prego e nunca apodrece; de que se também fazem carros muito bons; e é tão pesada esta madeira que se vai ao fundo.Putumuju é uma árvore real, e não se dá senão em terra muito boa; não são árvores muito grandes, mas dão três palmos de testa. Esta é das mais fixas madeiras que há no Brasil, porque nunca se corrompe, da qual se fazem eixos, virgens, fusos, esteios para os engenhos, e toda a obra de casas e de primor; a cor desta madeira é amarela com amas veias vermelhas; é pesada e dura, mas muito doce de lavrar.Há outras árvores, que se chamam urucuranas, que são muito compridas e de grossura, que fazem delas virgens e esteios para os engenhos, e outras muitas obras de casas, e tabuado para navios, a quem o gusano não faz mal; a qual madeira é pesada, e vai-se ao fundo; tem a cor de carne de fumo, e é boa de lavrar e serrar.
C A P Í T U L O LXVII
Daqui por diante se trata das madeiras meãs.
Madeiras meãs, e de toda a sorte, há tantas na Bahia, que se não podem contar, das quais diremos alguma parte das que chegaram à nossa notícia.E comecemos no camaçari que são árvores naturais de areias e terras fracas. São estas árvores muito compridas e direitas, das quais se tiram frechais e tirantes para engenhos de cem palmos, e de cento e vinte de comprido e dois de largo, palmo e meio afora o delgado da ponta, que serve para outras coisas; a qual madeira serve para toda a obra das casas, do que se faz muito tabuado para elas e para os navios. Esta madeira tem a cor verme-lhaça, boa de lavrar e melhor de serrar. Destas árvores se fazem mastros para os navios, e se foram mais leves eram melhores que os de pinho, por serem mais fortes; as quais árvores são tão roliças, que parecem torneadas. Cria-se entre a casca e o âmago desta árvore uma matéria grossa e alva, que pega como terebintina; e é da mesma cor, ainda que mais alva; o que lança dando-lhe piques na casca em fio, e o mesmo lança ao lavrar e ao serrar, e lança em muita quantidade; e se toca nas mãos, não se tira senão com azeite; e se isto não é terebintina, parece que fazendo-lhe algum cozimento, que engrossará e coalhará como resina, que servirá para brear os navios, de que se fará muita quantidade, por haver muita soma destas árvores à borda dágua, e cada uma deita muita matéria desta.Guanambi é uma árvore comprida, e não muito grossa, cuja madeira é amarelada, que serve para obra de casas em parte aonde lhe não toque a água; a casca desta árvore é muito amarela por dentro e entre ela e o pau lança um leite grosso, e de côr amarela muito fina, o qual pega como visco; e com ele armam os moços aos pássaros; da qual madeira se não faz conta, nem se aproveitam dela senão em obras de pouca dura; as quais são muito compridas, direitas e roliças, de que se fazem mastros para navios.
C A P Í T U L O LXVIII
Que trata das árvores que dão a embira, de que jazem cordas e estopa para calafetar navios.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.