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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos errantes e faceis - que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se tinha divertido. E o que elle não queria era achar-se envolvido n'uma paixão ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta annos, de que depois se desembaraçaria difficilmente... Nos braços d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas

esgotada a primeira curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não desejam, a horrivel massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa distillando doutrina... Tudo isto o

assustava... E, todavia, gostara d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito irregular, e picante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde sentia ao mesmo tempo alguma cousa

de maduro e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos e quentes...

Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante:

- Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão, apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho andado n'um turbilhão!... Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!... Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó Calção!

A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão, gritou no rumor da rua:

- Um romance divino, chic a valer!

Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o cachimbo:

- E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel desapparecimento?...

Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante, atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a noticia de um romance divino!

- Bem sei, disse o Taveira.

- Como sabes?... exclamou Carlos.

Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...

- Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?

- Exactamente, uma cadelinha escoceza, um griffon côr de prata... Quem são?

- E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?

- Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente é?

- Uma gente brazileira, penso eu.

Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros pormenores ao Taveira - mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande acontecimento d'essa manhã na Gazeta Illustrada. - Na Gazeta Illustrada?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.

- Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a Gazeta? Manda buscar a Gazeta!

Taveira puxou o cordão da campanhia; - e quando o escudeiro trouxe a Gazeta, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.

- Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.

- Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal atraz das costas.

Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas retintas, era um trabalho de seis columnas, em

estylo emplumado e cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o genio financeiro do

Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa proxima, ao grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado - J. da E. - as iniciaes de João da Ega!

- Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do bilhar.

- É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.

O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...

- Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!

(continua...)

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