Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! - E acrescentou com uma voz respeitosa: - E Deus!

- Que bonito está o rio! - disse Luísa.

Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:

- O Tejo!

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim burguês; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de mármore, que se elevam dentre os maciços e as moitas de dálias, pássaros pousavam.

Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...

- Por causa dos suicídios! - acudiu logo o Conselheiro. - E todavia, segundo a sua opinião, ossuicídios em Lisboa diminuíam consideravelmente; atribuía isso à maneira severa e muito louvável como a imprensa os condenava...

- Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!

- Se fôssemos andando?... - lembrou Luísa.

O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a, a ir colher uma flor, reteve-lhe vivamente o braço:

- Ah, minha rica senhora, por quem é! Os regulamentos são muito explícitos! Não os infrinjamos,não os infrinjamos! - E acrescentou: - O exemplo deve vir de cima.

Foram subindo, e Luísa pensava: - "Vai para casa; larga-me ao Loreto."

Na Rua de São Roque espreitou o relógio de uma confeitaria: era meia hora depois do meio-dia! Já Basílio esperava!

Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.

- Ah! Pensei que ia para casa, Conselheiro!

- Já agora quero acompanhá-la, se Vossa Excelência mo permite. Decerto não sou indiscreto?

- Ora essa! De modo nenhum.

Uma carruagem da Companhia passava, seguida de um correio a trote.

O Conselheiro, com um movimento ansioso, tirou profundamente o chapéu.

- É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro. - Começou logo o seu elogio: era o nosso primeiro parlamentar; vastíssimo talento, uma linguagem muito castigada! - E ia decerto falar das coisas públicas, mas Luísa atravessou para os Mártires, erguendo um pouco o vestido por causa de uns restos de lama. Parou à porta da igreja, e sorrindo:

- Vou aqui fazer uma devoçãozinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, apareça. fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.

- Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenhopressa. - E com respeito: - Muito louvável esse zelo!

Luísa entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do coro, calculando: - "Demoro-me aqui, ele cansa-se de esperar e vai-se!" Por cima reluziam vagamente os pingentes de cristal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fosca. E as arquiteturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas laterais de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capela, os frontais roxos dos púlpitos, ao fundo dois reposteiros de um roxo mais escuro, e sob o dossel cor de violeta os ouros do trono. Um silêncio fresco e alto repousava. Diante do batistério um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente; dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de xales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante de um altar; e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas numa melopéia lúgubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.

Luísa subiu ao altar-mor. Basílio impacientava-se, decerto, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face cor de cidra para uma janela na cúpula, e olhando Luísa de lado:

- Vai indo para as duas.

Para as duas! Era capaz de não esperar, Basílio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo áspero de se achar no Paraíso, nos braços dele! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas de espadas, os Cristos chagados - cheia de impaciências voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Basílio!... Mas demorou-se, queria "fatigar o Conselheiro, deixá-lo ir". Quando pensou que ele teria partido, saiu devagarinho. - Viu-o logo à porta, direito, com as mãos atrás das costas, lendo a pauta dos jurados.

Começou imediatamente a louvar a sua devoção. Não entrara porque não quisera perturbar o seu recolhimento. Mas aprovava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a imoralidade que grassava...

- E além disso é de boa educação. Vossa Excelência há de reparar que toda a nobrezacumpre...

Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquela linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ela misteriosamente; disse-lhe ao ouvido, sorrindo:

- Está um dia apreciável!

E ofereceu-lhe bolos à porta do Baltresqui. Luísa recusou.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7677787980...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →