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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Mas o quê, minha senhora?- Olha, dá-me aquela bebida que davam à mamã, nas insó nias, a que tu tomas quando tens as dores... Tens?- Quer ópio?

— Não sei! Água opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me disse... — Minha querida menina, eu tenho ópio. Uma gota num copo de água. Eu sei? Talvezlhe faça mal!

— Dá-ma, o doutor disse-mo ontem. Dá, depressa!Bebi. Era água opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que ador meci logo, e lembro-me que durante o sono sentia-me caminhar incessantemente, num movimento perpétuo que afectava todas as formas, ora lento e pacífico, como um passeio sob uma alameda; orarápido, volteado, e era a valsa de Gounod que eu dançava; ora sole ne e melancólico, e era um enterro que eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era noInverno, e eu patinava sobre a neve.

Acordei de manhã, serena e decidida. Mandei pôr um coupé. Sai. Fiz parar à porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa manhã, que Rytmel estava comele, em Belas. Subi. Apareceu um criado português, Luís, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, discreto pelo medo — M. Rytmel!- Saiu, senhora condessa.

— Jacques?- Foi com ele, senhora condessa. Jacques era um criado antigo de Rytmel. — Luís, leva-me ao quarto de Mr. Rytmel.Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente a uma secretária, revolvi as gavetas, as peque nas papeleiras... Nenhumas cartas, apenas cartasindiferentes. Irritada, abri as cómodas, espalhei as roupas, procurei nos baús, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenética, desesperada, infame!- Luís — disse eu baixo. — Luís, tens vinte libras. Tens cin quenta.

— Mas, minha senhora...- Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo, estúpido... Onde tem ele às cartas, ele?

— Oh, minha senhora — disse o criado, com uma voz lamen tável -, eu não sei.- Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?...

— Tem. Tem uma carteira de marroquim. Trá-la consigo. Anda cheia de cartas...Levou-a decerto. Nunca a deixa. Saí, desci a escada, correndo, fugindo daquele desastre, da quela vergonha, daquelas confidências. Atirei-me para o fundo da carruagem.- A casa! — gritei.

Tinha fechado os estores: soluçava, sem chorar.- Betty! Betty! — clamei logo no corredor. Ela apareceu, correndo, — Betty — disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. — Diz-me: aquela água com ópio não faz mal? — Porquê? Sente-se doente? — Não. Estou bem. Não faz mal?- Nenhum.

— Juras? — Juro. Mas...- Jura sobre estes santos Evangelhos.

— Oh, senhora! Mas, porquê? Juro. Mas, porquê?- Tens ópio? Dá-mo. — Quer dormir? — Não.Ela então olhou-me, fez-se extremamente pálida.

— Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?- Dá-mo. Dá-mo, Betty. Pensas que me quero matar? Ela calou-se. — Oh, doida! — disse eu, rindo. — Se me quisesse matar não to pedia. Mas sou feliz...Passaram-se outras coisas, vês tu? Não tas digo, mas sou feliz. Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com ele.E com a voz mais baixa, como envergonhada:

— É às dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar. — Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lho dou. O frasco de ópio estáaqui nesta gaveta do lavatório. Não lhe faça isto mal, meu Deus!

— Não, não, minha Betty! Ah! Está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a conversar comigo. São cincohoras. Para as dez pouco falta. Não custa esperar. Está então naquela gaveta o fras co... Bom.

Sabes, Betty? Sou feliz. Não quero dormir. Conta-me uma história.A pobre criatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos fitos na gaveta do lavatório. Betty falava, falava! Eu ouvia as suas palavras sem compreender, como se ouve um mur múrio de água.

X

A tarde descia no entanto, e eu sentia uma inquietação, uma angústia crescente. Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes daquela noite.Não o exigirá decerto. Nada seria mais ter rível do que ter de redigir e colorir o meu crime.

Perdoe-me a confusão aflita das minhas palavras e os arabescos trémulos da minha letra.Eram dez horas da noite: fui à casa n-o... Rytmel estava lá. Achei-o pálido, e instintivamente estremeci. Conversámos. Enquanto ele falava, eu olhava-o avidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que devia fazer a carteira onde es tavam ascartas. E revolvia com a mão húmida o bolso do meu vestido: tinha nele o frasco do ópio.



(continua...)

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