Por Eça de Queirós (1901)
-São três horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este sítio.
Sobre um outeirinho, afastada da estrada pôr arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para o Oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado pôr dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes raízes descarnadas da grande árvore, um pequeno esperava segurando um burro pela arreata, -Está pôr aí o Manuel da Porta?
-Ainda agora subiu pela alameda.
-Bem: empurra lá o portão.
E subimos, pôr uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o Tritão, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavalos.
-Como está o tio Adrião?
Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
-E então vossa excelência, bem? A Srª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
Seguimos pôr ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.
-Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixão deste Josezinho.
Mas quando chegamos ao laranjal, à beira da larga rua da Quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei: - Eh, prima Joaninha!...
-Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...
Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas ramas encruzadas. Uma fresca, límpida água de regra corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botões de ouro.
O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo duma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a Srª D. Joana seguir para o lado da parreira. Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes nogueiras. Gritei: - Eh lá? Vocês viram pôr aí a Srª D. Joana? Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
-Bem vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
-É uma bela Quinta – murmurava o meu Príncipe, encantado.
-Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião teve um feitor excelente... Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!
Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como sonhara o meu Príncipe, com os seus talhões debruados de alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira-chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva repousava, até a antecâmara, de altos tetos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta duma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola dum canário.
-É curioso! – exclamou Jacinto. – Parece o meu Presépio... E as minhas cadeiras.
E com efeito. Sobre uma cômoda antiga, com bronzes antigos, pousava um presépio, semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no sótão, umas armas sob um chapéu de Cardeal.
-Ó senhores! – exclamei. – Não haverá um criado?
Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da Quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.