Por Coelho Neto (1906)
Paulo começava a irritar-se. Avançou alguns passos e, violentamente, agarrando a negra por um braço, puxou-a, rasgando-lhe a camisa e, como não encontrasse resistência, numa raiva que crescia, que a inércia da louca parecia acirrar, esmurrou-a, atirou-lhe pontapés, e a miserável rolava, enrodilhava-se, com os braços pela cabeça, chorando humildemente. Dona Júlia, ouvindo a rumor, chamou o filho. Ele saiu, deixando a negra por terra, descomposta, gemendo.
— Que é? perguntou a velha assustada.
Ele respondeu ofegante:
— É demais! Também não se pode ter paciência de santo.
— Deste na pobrezinha, Paulo?
— Ah, não... Está uma fera. Não se lhe pode falar: assanha-se como uma víbora. Não estou para aturá-la. Louca, pois que vá para o Hospício.
A negra chorava alto, lamentando-se. Paulo quis voltar à cozinha.
— Deixa-a, pediu Dona Júlia. Não lhe batas, coitada! Não tem consciência do que faz. Deixa-a.
Ele deu uma volta pela sala e, lembrando-se de que a mãe nada havia comido até aquela hora, tomou o chapéu e, chegando-se à porta do quarto, disse:
— Eu vou a um hotel mandar vir alguma coisa. Até já.
E saiu resmungando.
CAPÍTULO XIX
Paulo estava à janela quando uma carrocinha de mão parou à porta. O carroceiro adiantou-se e ele, antes que o homem falasse, disse: "É aqui mesmo." Era a bagagem de Ritinha: um baú de couro, uma pequena lata, dois caixotes e a gaiola do canário que esvoaçava, assustado. Justamente o carroceiro arrastava a baú pesado, tombando-o sobre a calçada, quando a mulata apareceu risonha. Paulo recebeu-a e, dizendo ao carroceiro que deixasse tudo na sala, levou-a para o sofá. Ela queixou-se de cansaço.
— Vieste a pé?
— Não, vim de bonde até o Largo da Lapa, mas de lá toquei-me numa batida até aqui e com este calor... E sua mãe?
— Está lá dentro. Nós precisamos conversar. Deixa o homem acabar o serviço. Temos uma combinaçãozinha. — E, voltando-se para o carroceiro, que deixara a gaiola a um canto: Pronto?
— Sim, senhor.
— Ajustaste? perguntou à Ritinha.
Ela disse-lhe o preço. Pagou, fechou a porta e tornou ao sofá sentando-se muito chegado à mulata que parecia examinar a sala, escura àquela hora da tarde.
— Ouve, eu falei à mamãe: disse-lhe que vinhas a mandado do Mamede. Tendo-lhe eu dito que ela estava sem uma pessoa de confiança em casa, ele fez questão de que viesses para tratá-la. Dormes no meu quarto, eu vou lá para dentro... Isto é só nas primeiras dias, já se vê; depois... fica por minha conta. — E beijou-a. — Agora vamos lá, quero apresentar-te á velha. Hás de gostar dela.
Ritinha estava receosa, e, no sofá, retorcendo o lenço, parecia meditar.
— Anda!
— Olhe lá! Veja bem o que vai fazer...!
— Não tenhas medo. Deixa de tolice. Mamãe está doente, não se levanta.
Anda.
— Se ela me disser alguma coisa eu volto, vou-me embora. Isso tão certo... — Ora... Vamos.
A mulata levantou-se e foram juntos pelo corredor escuro. Paulo acendeu o gás na sala de jantar e, chegando à porta da quarto, anunciou:
— Mamãe, está aqui a moça de que lhe falei. Ela pode entrar? A velha desculpou-se:
— Oh! meu filho, isto está num desarranjo... nem foi varrido. Pede desculpa.
— Ela sabe, mamãe.
— Não sou de cerimônia, — disse Ritinha já no quarto.
A luz da lamparina mal aclarava uma parte do aposento. A enferma sentouse na cama e procurou ver a mulata que se adiantava, estendendo a mão. Houve um momento de travado silêncio — as duas mulheres pareciam examinar-se. Por fim Dona Júlia falou tranqüilizada, como se a fisionomia de Ritinha a houvesse serenado:
— É ainda muita mocinha.
— É o que parece. Então que é isso?
— Eu sei, minha filha?! Estou fazendo horas para seguir o meu destino. E queira Deus que não demore porque já estou cansada de sofrer.
— Qual! a senhora fica boa. Eu estou aqui para o que for preciso. Não valho muito, mas os meus préstimos ficam às suas ordens. Antes mesmo de Mamede me falar eu já tinha dito a seu filho que, se fosse preciso...
— Obrigada. Nem sei como a senhora vai se arranjar nesta barafunda. Isso lá por fora está que é uma vergonha. Eu imagino! A nossa criada, coitada! lá está na cozinha gemendo, gritando.
— Ainda!
— Ora!
— Se eu digo à mamãe que o melhor é pedir que a mandem tirar daqui...
— Tenho pena... — E tomando à Ritinha: A senhora compreende, foi uma criatura que sempre nos acompanhou com a maior dedicação, muita amiga de todos. Teve a infelicidade de ficar assim e eu, francamente, não tenho coração para tocá-la de casa.
— Aqui é que ela não pode ficar, mamãe. É impossível. Não há tanta gente boa no Hospício? Aquilo não é um presídio, é uma casa de caridade.
— Sim, mas a gente sempre tem pena. Enfim, tu é que sabes. Eu não digo nada.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.