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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Mas logo o padre conheceu que o Macário não fugira sem motivo. Quando se voltou para seguir a direção do olhar assustado do sacristão, dois homens, dois índios, parados a alguns passos de distância por trás dum matagal que lhes encobria a parte inferior do corpo, do ventre para baixo, ofereciam aos olhos atônitos do padre os troncos nus e a face cor de cobre, que se destacavam no meio da verdura como um baixo-relevo de bronze. Os índios olhavam fixamente para o chapéu de três bicos que o vigário conservava na cabeça, e no momento em que o padre os vira, atiravam-se para a frente, cortando apressadamente o mato que lhes embaraçava o passo. Padre Antônio compreendia bem que tudo estava perdido. Chegara afinal a hora do martírio, por tanto tempo procurado e desejado como o supremo bem.

Nem valia a pena dirigir a palavra àqueles selvagens para implorar misericórdia, ou para falar-lhes a linguagem de paz e de amor que trazia desde muito estudada para o primeiro encontro.

Para que discursos?

Naquela manhã, que devia ser a última da sua vida inglória e obscura, percebera que os mundurucus não falavam a língua geral, mas um dialeto impossível de compreender para quem, como padre Antônio, possuía apenas os rudimentos do tupi. Seria escusada qualquer tentativa de conversão daqueles selvagens, sem o auxílio dum intérprete, sem a calma e o concurso do tempo.

Demais naquele supremo momento um desânimo profundo apoderou-se do seu coração. Como por encanto, desaparecera o entusiasmo ardente que o animara ainda havia poucos instantes. Enquanto os índios se esforçavam por aproximar-se dele, padre Antônio concentrava numa emoção profunda toda a agra tristeza da sua mocidade perdida, as saudades de sua meninice feliz e descuidada, as suas aspirações de mancebo, os sonhos de ventura e de glória, o negro desespero duma irremediável desgraça.

Como os arbustos derrubados pelos terçados indígenas, as suas ilusões caiam de súbito. Ia desaparecer para sempre da face da terra quem tanto soubera sentir os carinhos dessa mãe extremosa, e com tanto ardor amara o sol, as árvores, os passarinhos, a grande natureza virgem. Morreria às mãos de estúpidos selvagens quem se conhecera fadado para uma carreira brilhante, para deslumbrar o mundo com o brilho do talento e de virtudes raras! Nem ao menos teria tempo de chorar, como a filha de Jefté, a sua virgindade inútil! E o passamento desconhecido e inglório nenhum lustre daria ao seu nome, para sempre sepultado, com o corpo vigoroso e jovem, naquele inculto sertão, só visitado de feras e de índios boçais, que viriam tripudiar sobre o cadáver, talvez despedaçado sem reverência para servir de odioso troféu! Era triste sentir-se cheio de vida, de saúde e de força, tão perto da morte; e terrível era vê-la aproximar-se lentamente, certa e inevitável, sem que o alento duma esperança permitisse conservar uma ilusão. A realidade tremenda, esmagadora, estava ali naqueles braços nus, naqueles terçados finos, faiscando à luz do sol, como para dizerem brutalmente a evidência do seu fatal destino.

Um terror que ia crescendo e se definindo pouco a pouco invadia-lhe o coração. A dúvida mordia-o como uma serpente, causando-lhe um calafrio que acabava de tirar-lhe a presença de espírito. Estaria em graça? Não iria, por última e suprema infelicidade, morrer em pecado mortal, ele, cujo maior empenho fora salvar a alma das garras do demônio, e para o conseguir fizera um feixe de todas as paixões de homem e de todas as aspirações de moço e o queimara sem pesar na ara sagrada da religião e do sacrifício! As pequenas faltas, as tibiezas de ânimo, os súbitos desalentos acudiam-lhe à memória num tropel confuso, e um rápido clarão enchia-lhe o espírito de uma verdade amarga, rasgando-lhe os véus da consciência e patenteando a vaidade, o orgulho, a ambição de nome e de glória, que, mais do que o Amor Divino, haviam motivado os atos da sua vida. Perturbado, unindo à angústia do pecador na hora da morte, um vago pesar dos deleites perdidos e um arrependimento sincero e inútil, perdia a noção exata do que se passava em redor de si...

Os os rompiam afinal o mato que lhes estorvava a passagem. Padre Antônio caiu de joelhos sobre a relva ainda úmida das chuvas da véspera, e, juntando as mãos numa agonia, ergueu os olhos para o céu, num olhar em que pôs toda a sua alma, e aguardou silencioso o golpe que o devia prostrar para sempre.

CAPITULO IX

O capitão Manuel Mendes da Fonseca acabara de tomar a sua xícara de café, adoçado com rapadura, acendera um cachimbo, e fora para a porta da rua, a conselho de D. Cirila, espairecer a negra preocupação que lhe haviam deixado as Últimas notícias vindas de Manaus pelo vapor Belém.

Seriam cinco horas da tarde. O sol caminhava lentamente para o ocaso, ensombrando mais da metade da rua e dando reflexos dourados à água serena do lago Saracá, tranqüilo àquela hora, como de ordinário.

(continua...)

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