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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Os seus doentes dançam quadrilhas?

- Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para uma valsa... O piano está simplesmente alli para dar idêas alegres; é como uma promessa tacita de saude, de futuras soirées, de bonitas arias do Trovador, em familia... - É engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com Charlie collado aos vestidos.

E Carlos, caminhando ao lado d'ella:

- V. ex.ª não imagina como eu sou engenhoso!

- Já n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito inventivo quando odiava.

- Muito mais quando amo, disse elle rindo.

Mas ella não respondeu: parára junto do piano, remexeu um momento as musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.

- É um chocalho.

- Oh, senhora condessa!

Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer - um focinho de cão de S. Bernardo, macisso e bonacheirão, adormecido sobre as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce á vista, e attrahindo como um setim.

- Este é um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um Rubens... É pena que se não possam vêr essas maravilhas.

Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirões lhes impedisse, a elle e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a herva pelos tapetes.

- É por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avô a casar-se.

A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do véo.

- Gosto da sua alegria, disse ella.

- É uma questão de regimen. V. ex.ª não é alegre?

Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom d'intimidade e de confidencia:

- Dizem que não, que sou triste, que tenho spleen...

O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas teclas do piano - e elle baixou a voz para lhe dizer:

- É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se, voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!

Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se escapou um clarão de ternura e de triumpho:

- Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco horas... Charlie!

O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.

Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada de pedra:

- Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a dar-me a honra de me vir consultar...

Ella gracejou, toda risonha:

Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo...

- Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites nenhuns ás minhas esperanças... Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada, encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.

- Então vae por ahi além, por ahi além...?

- Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!

Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.

- Mande-me chegar um coupé.

Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.

- E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.

- A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?

Ella corou de leve, murmurou:

- Ando fazendo as minhas devoções...

Depois saltou ligeiramente para o coupé - deixando Charlie, que Carlos ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente.

- Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!

Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça - ambos tão doces como caricias.

Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...

Realmente gostava d'aquella audacia d'ella - ter vindo assim ao consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr, para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que elle tão negligentemente deixara cahir e quebrar...

(continua...)

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