Por Eça de Queirós (1870)
— Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore...- Não posso, não posso. Eu morro... Vem para ao pé de mim, Betty!... — Meu Deus, quer-se deitar? Diga... E erguendo os olhos e as mãos, numa imploração cheia de dor, de desespero:- Deus me leve para si! Ai! Nada disto era se a mamã fosse vi va, minha senhora!
Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande aflição, senti os olhos húmidos, ossoluços sufocaram-me, e arremessando-me aos seus braços, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, cho rei pela saudade, chorei pela traição, chor ei pelo meu passado legitimo, chorei pelo encanto dos meus pecados, chorei por me sentir chorar...
IX
Sosseguei. Vencida, fiquei numa chaise-longue, muda e como morta. Olhava maquinalmente o tremer da luz.
— Betty — disse eu -, deita-te. Eu estou bem. Vai... Ela saiu, chorando. O quarto estava mal alumiado. Eu via, fo ra, as ramagens do jardim, recortando-se num relevo negro sob o pálido céu, cheio da Lua. Estive muito tempoassim, olhando, sem consciência e sem vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em coisas alheias aos interesses da minha dor: lembrava-me a for ma de um vestido que eu tinha desenhado para a Aline.Por fim ergui-me, passei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me à consciência e à verdade das minhas aflições.Arranquei a folha de uma carteira, e escrevi a lápis tumultuosa mente: «Tem razão, tem razão. Espero-o amanhã às 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o amo; só lá lhe direi o que sofro.»Eu mesma saí do corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, alumiada por um grande globo fosco, chamei um criado, André, im becil e discreto, e atirei-lhe o bilhete lacrado,dizendo-lhe:
— Leve este bilhete já... Vá numa carruagem. E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá.Vim sentar-me à janela do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o luar, as grandes sombras, tinham um repouso român tico e triste. Lentamente, a minha desgraçacomeçou aparecendo-me inteira, nítida, em pormenores, numa grande síntese, como se fosse um mapa.
Eu era traída! Aos vinte anos, com todas as inteligências da paixão, com todos osdelicados prestígios do luxo, era traída, era traída! Senti então, pela primeira vez, a presença do ciúme, esse personagem tão temido, tão cantado nas epopeias, tão arrastado pela rampa do teatro, tão conhecido da polícia correccional, tão cruel, tão ridículo, tão real! Vi-o!Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e mordente como um corrosivo; a sua argumentação miú da, jesuíta, implacável, sanguinária: todo o seu processo de acção, quetorna de repente o coração mais puro tão imundo como a toca de uma fera.
Senti o mais cruel dos ciúmes todos; aquele que se define, que diz um nome, que desenha um perfil, que no-lo mostra, o nosso inimigo, que nos enche as mãos de armas, quenos obriga a avançar para ele. Eu sentia no meu ciúme um ponto fixo — ela. Era ela, a outra! Lembrava-me confusamente: tinha cabelos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouroesfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de Longchamps. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar nele o que quer que fosse, que prome tia um destino pacífico. Que secreto encanto se irradiaria da esbel ta fraqueza do seu corpo? Era asimplicidade? Era a inteligência? Era a ciência das coisas do amor?... Como eu ardia por a conhecer! E não sabia nada dela senão que era irlandesa, e que se chamava miss Shorn!Ah!, sim, sabia outra coisa — que ele a amava! Conhecê-la! Conhecê-la! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! Decerto! Ela devia pôr nelas toda a sua íntima personali dade. Era loura, era inglesa, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem sobressaltose sem inspirações da paixão; nas suas cartas, provavelmente, desfiava o seu coração. Eu conhecê-la-ia bem, se as lesse! Eu saberia o estado de espírito de Rytmel, a marcha da suapaixão, pelas cartas dela. Devia lê-las! Era neces sário pedi-las, roubá-las, comprá-las, eu sei! Mas era necessário lê-las!
Para pensar assim eu nenhuma prova tinha de que ele recebia cartas dela, mas tinha a certeza que elas existiam e que o seu coração estava cheio delas...
Quis serenar, pacificar-me, dormir.Deitei-me. O meu pobre cérebro estava numa vibração tem pestuosa; era como numa tormenta em que vêm à superfície da mesma vaga os destroços de um naufrágio e as flores da alga; no meu espírito revolto, surgiam, no mesmo redemoinho, as coisas graves e as recordações fúteis, as minhas dores e as minhas fanta sias, os desastres do meu amor e ditos de óperas cómicas! Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.
— Betty! Não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. Quero amanhãtodas as minhas faculdades em equi líbrio. Se não durmo estou perdida, endoideço... Dá-me alguma coisa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.