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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Zé Fernandes, seria excessivo, só pôr causa de meia dúzia de pêssegos, e dum boião de doce.

Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da Quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para a taberna do Torto, pôr causa daquele vinhinho branco, que sempre, quando pôr ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado:

-Ó! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoço, vais beber vinho branco?

-É um costumezinho antigo... Aqui à taberninha do Torto...Um decilitrozinho... A almazinha assim, mo pede.

E paramos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.

-Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.

Depois dum pálido protesto, o meu Príncipe também quis, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delícia, e um estalinho de alto apreço.

-Delicioso vinho!... Hei de querer deste vinho em Tormes...É perfeito.

-Hem? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!...Encha lá outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, o fidalgo de Tormes.

Então, de trás da ombreira da taberna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente:

-Bendito seja o Pai dos Pobres!

E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos dum negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.

-Pois aqui o tem, o senhor Jacinto, que corara, embaraçado.

-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez pôr aí todo esse bem à pobreza.

O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase negro duma manga muito curta.

-A mão!

E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:

-Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:

-Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que pôr aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem!

Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência:

-Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer pôr aí, pelos sítios, que El-Rei D. Sebastião voltara?

O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a percussão dos seus pensamentos:

-Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa...Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!

E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:

-Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que El-Rei D. Sebastião não morreu na batalha?

O velho ergueu para mim a face, que enrugara numa desconfiança:

-Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e V. Srª tem pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Pôr cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!

Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro, quando o seu brado ardente de novo reboou, com solenidade cava:

-Bendito seja o Pai dos Pobres!

Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as aclamações dum povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino um Sebastianista.

-Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu.. Ou antes a minha, porque eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?

-Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa é aquela com os dois torreões?

-A Flor da Malva.

Jacinto tirou o relógio:

(continua...)

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