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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Farto de tão clássica controvérsia, acheguei a Eliézer um covilhete de mel do Hébron - e conteilhe quanto me agradara o caminho do Garebe entre jardins. Ele concordou que Jerusalém, cercada de vergéis, era doce à vista como a fronte da noiva toucada de anêmonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios de açougues, junto ao morro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrância de Siloé...

- Fui ver Jesus - atalhei severamente. - Fui ver Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanedrim...

Eliézer, com oriental cortesia, bateu no peito demonstrando mágoa. E quis saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhara comigo o pão de aliança, esse Jesus que eu fora assistir na sua morte de escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

- É o Messias!

E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliézer, doutor do templo, físico do Sanedrim, não conhecia Jesus de Galiléia!

Atarefado com os enfermos que, pela Páscoa, atulham Jerusalém (confessou ele) não fora ao Xisto, nem à loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hanão, onde as novas voam mais numerosas que as pombas; por isso nada ouvira da aparição de um Messias...

De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem "o consolador", porque traria a consolação a Israel. E haveria dous Messias: o primeiro, da tribo de José, seria vencido por Gogue; o segundo, filho de Davi e cheio de força, venceria Magogue. Antes dele nascer começariam sete anos de maravilhas; haveria mares evaporados, estrelas despregadas do céu, fomes e tais farturas que até as rochas dariam fruto; no último ano correria sangue entre as nações; enfim ressoaria uma voz portentosa; e, sobre o Hébron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!

Dizia estas cousas peregrinas, fendendo a casca de um figo. Depois com um suspiro:

- Ora, ainda nenhuma dessas maravilhas, meu filho, anunciou a consolação!...

E atolou os dentes no figo.

Então fui eu, Teodorico, ibero, de um remoto município romano, que contei a um físico de Jerusalém, criado entre os mármores do templo, a vida do Senhor! Disse as cousas doces e as cousas fortes; as três claras estrelas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as águas de Galiléia; o coração dos simples palpitando por ele; o reino do céu que prometia e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...

- Depois os padres, os patrícios e os ricos crucificaram-no!

Doutor Eliézer, volvendo a remexer o açafate de figos murmurou pensativamente:

Triste, triste!... Todavia. meu filho, o Sanedrim é misericordioso. Em sete anos, desde que o sirvo, apenas tem lançado três sentenças de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça; mas Israel tem sofrido tanto com inovadores, com profetas!... Enfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos, de Beftagé, não valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E nesse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o helenismo e as escolas socráticas, empinado, de óculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

- Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles o fruto... E desta árvore, assim completa, se tem nutrido o espírito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se; doutor Eliézer também, arrotando com efusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

- Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egito!

Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio de Ofel... O doutor da lei conduziu-nos à varanda, alumiada palidamente por lâmpadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliézer num aposento cerrado por cortinas de Mesopotâmia - de onde saiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.

(continua...)

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