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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, já para sahir, calçando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou com alvoroço:

- Uma senhora!

Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de velludo preto - e atraz uma mulher, toda de negro, com um véo justo e espesso como uma mascara.

- Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. Carlos da Maia ia sahir... Carlos reconheceu a Gouvarinho.

- Oh senhora condessa!

Desembaraçou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; depois sentou-se á borda e de leve, com o pequeno junto de si.

- Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o véu, como fallando do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. Não o mandei chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui... Além d'isso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o medico, parece-lhe que vae morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não tens medo, não é verdade, Charlie?

O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e debil sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam até aos hombros, devorava Carlos com uns grandes olhos tristes.

Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:

- Que tem elle?

Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além d'isso, por traz da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquillo inquietava-a. Ella era forte, de uma boa raça, que dera athletas e velhos de grande edade. Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa não conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó.

Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a Charlie:

- Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico cabello elle tem, senhora condessa!... Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do medico de que fallara a mamã veio logo, desapertou delicadamente o seu grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço macio e alvo como um lyrio.

Carlos vio apenas uma pequena mancha côr de rosa desvanecendo-se; do «caroço» não havia vestigio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo tudo, querendo vêr n'elles a confissão do sentimento que a trouxera alli com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles véus que a mascaravam...

Mas ella permaneceu impenetravel, sentada á borda do divan, com as mãos crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de mãe. Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:

- Não é absolutamente nada, minha senhora.

No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educação da creança não fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o pae oppunha-se ao que elle chamava «a aberração ingleza», a agua fria, os exercicios a todo o ar, a gymnastica...

- A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor reputação do que merecem...

É o seu unico filho, senhora condessa?

- É, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mão pelos cabellos louros do pequeno.

Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.

- Não imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um geito ao veu. De mais a mais é um gosto vir consultal-o... Não ha aqui o menor ar de doença, nem de remedios... E realmente tem isto muito bonito... - accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do gabinete.

- Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum respeito pela minha sciencia... Eu estou com idêas d'alterar tudo, pôr aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas d'in-folios...

- A cella de Fausto.

- Justamente, a cella de Fausto.

- Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que brilhou sob o véo.

- O que me falta é Margarida!

A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo lento para a porta, puxando outra vez o véo.

- Como v. ex.ª se interessa pela minha installação, acudiu Carlos querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.

Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o piano fel-a sorrir.

(continua...)

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