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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

«Creio que te fias de mais no amor! Ele não constrói nada, não resolve nada, compromete tudo e não responde por coisa alguma. É um desequilíbrio das faculdades; é opredomínio momentâneo e efémero da sensação; isto basta para que não possa repousar sobre ele nenhum destino humano. É uma limitação da liberdade; é uma diminuição do carácter; especializa, circunscreve o indivíduo; é uma tirania natural, é o inimigo astuto docritério e do arbítrio. E queres que tenha esta base a tua situação na vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possível, enquanto ele viver do im previsto, do romance e doobstáculo; enquanto necessitar do coupé de estores cerrados; mas logo que entre num estadoregular, que se estabeleça definitivamente para durar, que se organize, que se economize, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar -se, tem a miséria de se assemelhar àschamas pintadas de um inferno de teatro. E então, desde o momento que o amor desaparecesse, que razão de ser tinha a tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teuincoerente destino? Ficavas sem uma situação definida; tudo te era vedado, ou pela força das leis sociais, ou pela alti vez da tua honra. Recuar para as coisas legitimas, arrepender-te, era impossível: o arrependimento é um facto católico, não é um fac to social. Continuar apersistir em viver pelo amor era um equívoco hipócrita, e poderias um dia encontrar-te a viver na libertinagem.«Imaginas hoje que o amor é a única tendência, a única preo cupação da tua vida... Não: é apenas ideia dominante na tua natu reza. Há outras exigências, que hoje não sentes clamarem dentro de ti, porque têm sido plenamente satisfeitas nomeio legitimo em que tensvivido; mas quando, mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como numa concha, sentirás então amarga mente que te falta o quer que seja que é a sociedade, a opinião,o centro de amizades, o rang, as consolações incomparáveis que dá a estima dos que nossaúdam. E o não encontrar então no mundo o teu lugar, elegante, aveludado, agaloado, emplumado e coroado, dar-te-á a sensação do abandono; e as consolações que então tequiser ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o mesmo tédio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor que te fugisse. Umamulher que foge com o seu amante, só pode ter um lugar no Demi-monde; ou então um lugarequívoco nas salas, quando é célebre por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Itália frequentar, em Nápoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar num teatro, nem cometera inconveniência de escrever um livro. A viver modesta, tens de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que podes, por um ano sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?«O segredo, o refúgio, um ninho perfumado num quinto andar, são coisasextremamente doces, no meio da sociedade e das rela ções do mundo; a public idade oficial da vida dá então um encanto estranho àqueles momentos de mistério. Mas a perpetuidade domistério deve ser igual àquela legendária tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram, pelas fatais condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do outro,um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quandoisto se não passa na ilha de Robinson, num entre dois discípulos de Swedenborg, nem entre dois desgraçados cheios de fome — mas numa cidade ruidosa e viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo Se-gundo Império, e que têm as complacências do luxo, crê que deve ser amargo.

«E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-á tristemente, de país em pais, sem umcentro amado, sem uma família, sem um fim. Não teremos, nem durante a existência nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. A nossa vida será como a das sombras românticas de Paulo e Francesca de Rimini, levadas pe lo vento contraditório.Morreremos enfim como dois seres estéreis, que nada criaram, e que não têm quem fique na terra com a heran ça do seu carácter; e quando todos pelos seus filhos ganham a úni ca justaimortalidade, nós somente seremos mortais, e para nós mais que para ninguém será terrível a lembrança do fim! Perdoa que te escreva estas coisas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, dizer-te que me sinto feliz, e que o momento de amanhã, quandovirmos desaparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar, será para mim tão belo, que só por ele julgarei justificada a minha vida.»

Quando acabei de ler esta carta, sentei-me maquinalmente diante das malas, com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gave ta, tirei não me recordo que pequeno objecto derenda, e tornei a fechar, com um movimento automático, lúgubre, e a ausência absoluta da consciência e da vida. Chamei Betty:

— Betty, que horas são?- Onze, minha senhora.

— Dá-me água, tenho sede. Dá-me água com limão...Quando ela saiu fui encostar a cabeça à vidraça, a olhar o mo vimento ondeado e lento das ramagens escuras. A Lua pareceu-me regelada. Betty entrou.

— Betty — disse-lhe eu numa voz sumida -, sabes? Tenho medo de morrer doida...Ela olhoume, e viu no meu rosto uma tal expressão de angús tia, que me disse:



(continua...)

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