Por Eça de Queirós (1901)
-Isso é sublime! – murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
Na sala, a tia Vicência esperava-nos desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam ainda no silêncio e paz do serão debandado:
-Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de geléia, um cálice de vinho do Porto!
-Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! – exclamei desafogando o meu tédio. – Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
-Não! pelo contrário. Gostei menso. Excelente gente! E tão simples... todas estas raparigas me pareceram ótimas. E tão frescas tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.
Então contamos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria...
-Mas o Sr. Jacinto, não é?
-Eu, minha senhora, sou socialista...
Acudi explicando à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
-O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai também, e até amigo do Duque da Terceira...
Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra: - e uma bátega de água cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
-Santa Bárbara! – gritou a tia Vicência. – Ai aquela pobre gente!... Até estou com cuidado... As Rojões, que vão na vitória!
E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas no oratório, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o terço com a Gertrudes.
XIV
Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montamos a cavalo para um grande passeio até a Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
-Ó! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!
E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha. Mas a fotografia datada do seu tempo de viço rústico, quando ela era apenas uma bela, forte e sã planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia – e a alma que nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.
A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca que tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, e roçava-nos com uma carícia quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da manhã adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que tantas vezes sentira, naquele caminho, ao começar o Outono.
-Que delicioso dia! – murmurou Jacinto. – Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do Céu... Ó Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom?
Eu sorri, com certo pensamento:
-Não sei... É talvez já o cheiro do Céu!
Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
-Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma coisa de celeste. Também lhe hei de pedir que te mande o doce. Ele ria:
-Será explorar demais a prima Joaninha.
E eu (pôr quê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos duma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:
-Manda-lhe um servo querido,
Bem hajas dona formosa!
E que lhe entregue um anel
E com um anel uma rosa.
Jacinto riu alegremente:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.