Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Sentia necessidade de ar, de movimento. A casa, cada vez mais triste, sempre a ecoar esconjuros e lamentações da louca, tornava-se-lhe insuportável. A mãe, por outro lado, a suspirar, a chorar no quarto alumiado dia e noite pela lamparina devota. Vestiu-se e saiu, fechando a porta e levando a chave.

Ia à aventura, sem destino. Foi caminhando vagarosamente, preocupado com o estado da velha.

"Achava-a mal... e só, com a louca... Enfim, como contava voltar cedo... Onde poderia encontrar uma criada?" Seguia pensando, sem dar pelo caminho. De repente lembrou-se de Ritinha. Súbito calor aqueceu-lhe o sangue reavivando desejos. Se fosse vê-la? Talvez que ela lhe pudesse inculcar alguém, conhecia tantas raparigas. Era uma idéia. Estugou o passo e no Largo da Lapa tomou um tílburi, mandando tocar para a estalagem.

Ao chegar à casinha de Mamede ficou surpreendido vendo a porta e a janela fechadas e já se decidia a voltar, quando, da cerca da casa contígua, uma mulheraça, em mangas de camisa, com grandes peitos derramados sobre o ventre cheio, disse-lhe chuchando os dentes:

— Bata. Tem gente.

Ele agradeceu, atravessou o jardinete e bateu à porta. Falaram dentro, ele reconheceu a voz da mulata.

— Sou eu, Paulo.

— Responderam? perguntou a mulher. — Sim, senhora. Obrigado.

A parta entreabriu-se e Ritinha, reconhecendo-o, não teve sequer um sorriso. Ele entrou e, na meia escuridão da sala, exclamou espantado:

— Que é isto? Tudo fechado. Por quê?

Ela deu d'ombros, amuada.

— Que é dele?

— Quem?

— Mamede.

— Sei lá!

Sentou-se aborrecida.

— Houve alguma coisa entre vocês?

— Sei lá!

— Brigas, ciumadas; aposto.

— Ciumadas. Eu é que vou procurar a minha vida. Estou farta de aturar grosserias e de passar vergonhas. Quem não pode com o tempo não inventa modas. Aquilo é lá homem?! Não se importa com a casa — se tem dinheiro é pro jogo, se não tem, mete-se aqui bebendo, resmungando desaforos e eu que me vire em comida. O senhorio não sai aí da porta e, volta e meia, são cobradores batendo, com atrevimento. E ele? Há três dias que não aparece. Estão dizendo que foi preso numa casa de jogo. Não sei.

— E você agora?

— Eu vou por aí. De fome é que não hei de morrer.

Depois dum silêncio Paulo aproximou a sua cadeira e, tomando a mão da mulata, voltou à proposta antiga.

— Bem podias estar livre de tudo isto. Não queres...

— O quê?

— Sair comigo.

Ela baixou a cabeça, calada.

— Não queres viver em cômodos. Pois vem morar comigo.

— Com o senhor? Que é isso?! E sua mãe?

— Que tem? Mamãe é uma criatura excelente, estou certa de que te hás de dar muito bem com ela. Só depende de ti.

— Mas então sua mãe vai recebendo assim uma pessoa que não conhece? que nunca viu?

— Que tem isso? Eu saí mesma para procurar alguém que a acompanhe. Ela está de cama, muito mal. Tu aqui trabalhas como uma moura, para quê? Vais lá para casa, eu tomo uma criada, só tens que dirigir o serviço.

— Mas... para viver com o senhor?

— Então?

A mulata ficou pensativa. Ele insistiu:

— Decide.

— Não sei. Isso assim de repente... Sei lá!

Ele acentuou:

— Olha, vamos fazer uma coisa. Eu vou agora para casa, digo a mamãe que tu, a companheira de Mamede, te ofereceste para fazer-lhe companhia. Ela aceita, estou certa, porque a rapariga que nos servia ficou maluca e temos de despedi-la; eu venho buscar-te ou tu vais, à noite, e, depois de lá estares, o mais arranja-se.

Ela ouvia, escabichando as unhas.

— Mas então eu vou como criada?

— Não, filha; vais como pessoa de amizade, fazer um favor. Amanhã mesmo eu tomo uma criada e ficas como dona da casa, porque mamãe está de cama e creio que, infelizmente, não se levanta mais.

— Está assim?

— Perdida!

— De quê!

— Coração.

Houve um silêncio. Paulo fitava-a, acariciando-lhe a mão.

— A questão é sair daqui.

— Por causa dos trastes?

— Os trastes são dele; mas a minha roupa, o que é meu. O senhorio, com certeza, não me deixa tirar. Mamede está devendo tanto!

— Isso é simples: vais ao senhorio, dizes que retiras apenas o que é teu, dás-lhe algum dinheiro, se ele exigir.

— Era bom que eu tivesse!...

— Tenho eu. Quanto queres?

— Sei lá!

— Chegam cem mil-réis?

— Acho que sim. — Pois toma.

Deu-lhe o dinheiro escolhendo vagarosamente no maço, entre as notas grandes, duas de cinqüenta.

— E agora é tratar de arrumar as coisas e sair. Já devias ter feito isto. Mamede é um bom rapaz, mas não te serve. Levantou-se.

— Bem, vou para casa; deixei mamãe só. E olha que fico à tua espera. Vê lá. Não vás fazer alguma.

Ela respondeu, sem levantar os olhos:

— Já disse que vou.

— A que horas?

— À noitinha.

— Pois bem. Então até logo. E se precisas de mais alguma coisa...? — Não.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7475767778...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →