Por Inglês de Sousa (1891)
Haviam largado do porto em que passaram a noite chuvosa, e alguma coisa confortados com o regalo de dois gordos pacus que, por milagre! Macário pescara e assara ao espeto. Remavam regularmente, quando avistaram uma canoa que levava a mesma direção da montaria, mas seguindo a margem oposta do rio. Pararam de remar para esperar os companheiros que vinham mais atrasados, felicitando-se pelo auxílio que lhes chegara de improviso. A idéia de esperar fora do padre, porque Macário era homem experiente e desconfiava de tudo! Mas o senhor vigário não tinha medo de nada! Afinal a tal canoa de companheiros era nada mais nem menos — e só de pensá-lo Macário estremecia de horror — um ubá selvagem que surdira do Mamiá e navegava talvez para alguma aldeia da vizinhança.
A tempo teriam evitado o perigo, porque o ubá, tripulado por três índios, trazia grande velocidade, e seguia pela margem oposta, sem que os selvagens tivessem visto a pobre montaria. Mas a incrível imprudência e a espantosa leviandade de padre Antônio de Morais não o permitiram. S. Rev.ma queria à fina força converter mundurucus! S. Rev.ma queria a todo o custo ser mártir da Igreja! S. Rev.ma queria morrer flechado, embora sacrificando também a vida de quem não era padre, nem doido, nem nada!
Por isso em vez de deixar passar o ubá, Padre Antônio pusera-se a gritar como um possesso:
— Bom-dia, patrícios!
O ubá parara de repente. Os patrícios não hesitaram na resposta a dar a S. Rev.ma .Três flechas — com certeza estariam ervadas -descreveram uma elipse no ar, e vieram cair pertinho da montaria. Era o tiro de aviso, seguido de novo tiro. Duas flechas cravaram-se no fundo da canoa, tão perto do Macário que só por milagre poderia ter escapado. Milagre fora esse e grande, porque os diachos dos caboclos esqueceram-se de que o ubá subia o rio, cuja correnteza natural fora aumentada pela grande chuva da véspera que nele derramara as águas do monte. Sem se lembrarem de mais nada senão flechar os pobres brancos - largaram o jacumã, e o ubá, perdendo a força impulsiva que trazia, fora de mansinho cedendo à correnteza, e virando proa para baixo, começara a descer o rio com maior rapidez do que subindo lhe poderiam dar os braços dos tripulantes. Felizmente S. Rev.ma compreendera logo que os tapuios não estavam para conversas, e dando ele e o Macário ao remo, com a maior gana deste mundo, trataram de fugir. Valeu-lhes estarem ainda a boa distância da embarcação selvagem. Milagre fora ainda ficarem os índios tão furiosos e atarantados que não souberam dividir a atenção entre a presa que fugia e a correnteza que os arrastava. Milagre fora também encontrar logo a montaria um estirão que dobrara para escapar às vistas dos ladrões dos tapuios, e altas canaranas em que se escondesse. Milagre fora achar Macário, logo ao desembarcar com o padre, um enorme taperebá, donde pudera ver, trêmulo de susto, a manobra com que os mundurucus os caçavam, remando com vigor, mas parando de vez em quando, na ingenuidade do seu ódio, para exprimir a vontade com que estavam de os colher às mãos, e logo voltando ao remo, curvados sobre os joelhos, parecendo tocar de leve a água. Uma longa esteira seguia a embarcação, refletindo os raios do sol ainda no oriente, e os troncos vermelhos dos índios destacavam-se na linha do horizonte por entre a folhagem verde.
Na altura do estirão que, ao que deviam supor, lhes encobria os brancos, dispuseram-se a atravessar o rio, mas não vendo a montaria, pararam de remar, hesitantes e surpresos. E por que cessaram a perseguição, mudando subitamente de propósito e cedendo à ordem que num gesto lhes dava o do jacumã para que remassem em direção a um furo que já haviam passado? Inconstância selvagem, necessidade urgente que os chamasse àquele furo, ligada à certeza de que os brancos não lhes escapariam, devendo cair mais tarde ou mais cedo no seu poder — pelo que mandaram um último tiro, sem pontaria, como para dizer: até logo — isso é que Macário não podia decidir. Era provavelmente milagre de Nossa Senhora do Carmo e de S. Macário. Mas por isso mesmo aquele fato devia servir de lição, e Macário estava decidido, inteiramente decidido a aproveitar-lhe o ensinamento. Não hesitaria mais,. nem teria mais fraquezas. O encanto que o prendia a padre Antônio de Morais estava quebrado para sempre. Falasse para aí horas e horas, arregalasse os olhos na grande severidade de quem se julga superior a todos, vomitasse sangue, arrebentasse os peitos, Macário não arredaria pé dali, não se levantaria daquele tronco de árvore senão para voltar rio abaixo até Silves. Ainda que tivesse de morrer de fome ou de ser devorado por alguma onça, não embarcaria senão para voltar. Jurara-o. Era muito temente a Deus, não podia faltar ao seu juramento.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.