Por Eça de Queirós (1887)
Sim! E, ensopando um pedaço de bolo no molho de açafrão, o profundo físico explicou a Terra. Ela é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalém a santa, como um coração cheio de amor do Altíssimo; em redor a Judéía, rica em bálsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras, onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céu, sonoro e sólido.
- Sólido!... - balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.
Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarela da Média. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabor, trincasse uma cigarra frita. E Rabi Eliézer, sábio entre todos nas cousas da natureza, revelava a Topsius a divina construção do céu.
Ele é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de cristal; por cima delas constantemente rolam as grandes águas; sobre as águas flutua, num fulgor, o espírito de Jeová... Estas lâminas de cristal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma música doce e lenta, que os profetas mais queridos por vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altíssimo essa harmonia, tão penetrante e suave, que as lágrimas uma a uma lhe caíam nas mãos abertas... Ora, nos meses de Quisleu e de Tebé os furos das lâminas coincidem, e por eles caem sobre a terra as gotas das águas eternas, que fazem crescer as searas!
- A chuva? - perguntou Topsius, com acatamento.
- A chuva! - respondeu Eliézer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus óculos de ouro, que faiscavam de sábia ironia; mas o piedoso filho de Simeão conservava sobre a face, emagrecida no estudo da lei, uma seriedade impenetrável. Então o historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber, do esclarecido físico, por que tinham os cristais do céu essa cor azul que enleva a alma...
Eliézer de Silo elucidou-o:
Uma grande montanha azul, invisível até hoje aos homens, ergue-se a ocidente; ora, quando o sol abate, a sua reverberação banha o cristal do céu e anila-o. E talvez nessa montanha que vivem as almas dos justos!...
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: "Bebamos, louvando o Senhor!"
Ergueu uma taça cheia de vinho de Siquém, pronunciou sobre ela uma bênção - e passou-ma, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: "À sua, muitos e felizes!" E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu - "à prosperidade de Israel, à sua força ao seu saber!"
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de túnica amarela, que fazia ressoar sobre as lajes com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida pascal - as ervas amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicória, macela, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as amarguras de Israel, no cativeiro do Egito. E Eliézer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos autores gregos, que todos os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloqüência, lhe enervam o heroísmo; e com torrencial erudição citou logo Teofrasto, Êubulo, Nicandro na segunda parte do seu Dicionário, Fênias no seu Tratado das Plantas, Défilo e Epicarmo!
Gamaliel, secamente, condenou a inanidade dessa ciência - porque Hecateu de Mileto, só no primeiro livro da sua Descrição da Ásia, encerra cinqüenta e três erros, quatorze blasfêmias e cento e nove omissões... Assim dizia o leviano grego que a tâmara, maravilhoso dom do Altíssimo, enfraquece o intelecto!...
- Mas - exclamou Topsius com ardor - a mesma doutrina estabelece Xenofonte no livro segundo do Anábasis! E Xenofonte...
Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colher de ouro na borda da mesa, exaltou a eloqüência de Xenofonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverência por Sócrates!... E enquanto eu partia um empadão de Comagênia, os dous facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Sócrates. Gamaliel afirmava que as vozes secretas ouvidas por Sócrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmúrios distantes que lhe chegavam da Judéia, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os ombros, com desesperado sarcasmo. Sócrates inspirado por Jeová! Ora lérias!
No entanto era certo (insistia Gamaliel, já lívido), que os gentílicos iam emergindo da sua treva, atraídos pela luz forte e pura que derramava Jerusalém; porque a reverência pelos deuses aparecia em Ésquilo, profunda e cheia de terror; em Sófocles, amável e cheia de serenidade; em Eurípides, superficial e cheia de dúvida... E cada um dos trágicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!
- Oh Gamaliel, filho de Simeão - murmurou Eliézer de Silo -, tu, que possuis a verdade, para que dás acesso no teu espírito aos pagãos?
Gamaliel respondeu:
- Para os desprezar melhor dentro em mim!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.