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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Na véspera, Basílio, quando viu que ela faltava, teve um grande despeito e medo maior; a sua concupiscência receou perder aquele lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se aquela escravazinha dócil. Resolveu portanto, a todo o custo, chamá-la ao rego. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a atrair, decidiu ser severo para a castigar. E acrescentou:

- É uma criancice ridícula. Por que não vieste?

Aquele modo enraiveceu-a:

- Porque não quis.

Mas emendou logo:

- Não pude.

- Ah! É essa a maneira por que respondes à minha carta, Luísa?

- E tu, é esse o modo com que me recebes?

Olharam-se um momento, detestando-se.

- Bem; queres uma questão? És como as outras.

- Que outras?

E toda escandalizada:

- Ah! É demais! Adeus!

Ia sair.

- Vais-te, Luísa?

- Vou. É melhor acabarmos por uma vez...

Ele segurou o fecho da porta rapidamente.

- Falas sério, Luísa?

- Decerto. Estou farta!

- Bem. Adeus.

Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. Ela deu um passo, e Basílio com a voz um pouco trêmula:

- Então, é para sempre? Nunca mais?

Luísa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma comoção. Rompeu a chorar.

As lágrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão frágil, tão desamparada!...

Basílio caiu-lhe aos pés; tinha também os olhos úmidos.

- Se tu me deixares, morro!

Os seus lábios uniram-se num beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deulhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.

Ela prendia-o nos braços nus, pálida como cera, balbuciava:

- Não me deixes nunca, não?

- Juro-to! Nunca, meu amor!

Mas fazia-se tarde; era necessário ir-se! E a mesma idéia decerto acudiu-lhes - porque se olharam avidamente, e Basílio murmurou:

- Se pudesses aqui passar a noite!

Ela disse aterrada, quase suplicante:

- Oh! Não me tentes, não me tentes...

Basílio suspirou, disse:

- Não, é uma tolice. Vai.

Luísa começou a arranjar-se, à pressa. E de repente, parando, com um sorriso:

- Sabes tu uma coisa?

- O quê, meu amor?

- Estou a cair com fome! Não almocei nada, estou a cair!

Ele ficou desolado:

- Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...

- Que horas são, filho?

Basílio viu o relógio; disse quase envergonhado:

- Sete!

- Ai, Santo Deus!

Punha o chapéu, o véu, atrapalhadamente:

- Que tarde! Jesus! Que tarde!

- E amanhã, quando?

- À uma.

- Com certeza?

- Com certeza.

- Ao outro dia foi muito pontual. Basílio veio esperá-la ao fundo da escada; e apenas entraramno quarto, devorando-a de beijos:

- Que me fizeste tu? Desde ontem que estou doido!

Mas Luísa estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.

- Que é aquilo?

Ele sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destapando o cesto, com uma cortesia grave:

- Provisões, festins, bacanais! Não dirás depois que tens fome!

Era um lanche. Havia sanduíches, um pâté de foie gras, fruta, uma garrafa de champanhe, e, envolto em flanela, gelo.

- É brilhante! - disse ela, com um sorriso quente, rubra de prazer.

- Foi o que se pode arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!

Pôs o cesto no chão, e vindo para ela com os braços abertos:

- E tu pensaste em mim, meu amor? Os olhos dela responderam - e a pressão apaixonada dosseus braços. As três horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquilo parecia a Luísa muito estróina, adorável - e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champanhe. Sentia uma felicidade que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoráveis os seus braços nus movendo-se por cima dos pratos.

Nunca achara Basílio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquelas intimidades da paixão; quase julgava possível viver ali, naquele cacifo, anos, feliz com ele, num amor permanente, e lanches às três horas... Tinham as pieguices clássicas; metiam-se bocadinhos na boca; ela ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos - e ele quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champanhe. Talvez ela não soubesse!

- Como é? - perguntou Luísa erguendo o copo.

- Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champanhe por um copo. O copo ébom para o Colares...

(continua...)

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