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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

A minha carruagem subia a passo a Rua do Alecrim. As luzes acendiam-se. O céuestava ainda pálido.

Uma senhora passou, só, a pé, levando uma criança pela mão: era uma mulher nova edistinta; parecia feliz. O pequenino, louro, gordo, ria, palrava naquela linguagem misteriosa e dote, que é o que ficou ainda na voz humana do abc do Céu.

Como seria bom ser assim uma mulher pacífica, com um equi líbrio suave no coração,uma toilette fresca, o amor das coisas jus tas, e um filho pela mão! Se eu fosse assim seria alegre, amável, passearia, daria bombons ao meu pequerrucho, trá-lo-ia vestido de coresleves, com uma flor no cinto; conversaria com ele, e à vol ta, depois do cansaço do meu passeio, amaria a tranquilidade da minha vida. Grandes borboletas brancas voariam em Volta do candeeiro; eu, ajoelhada, procuraria despi-lo, sem o acordar, can tando, baixo, emsegredo, uma melodia dormente de Mozart e no entretanto a pena do pai rangeria, a um canto, sobre o papel. O perfumados paraísos da vida! como eu me afasto de vós!

Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quar to estavam fechadas,afiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande pele, apertada na sua correia.

Tudo estava pronto, devíamos partir na manhã seguinte. As minhas ideias simplesdebandaram.

Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de países extensos e distantes, que se atravessam ao galope da pos ta ou na velocidade de um vagão. Era noite. Não pediluz. O luar entrava no quarto através das árvores do jardim. Sentei-me à ja nela.

A minha situação apareceu-me então com o prestigio de um belo romance. Milimaginações e fantasias cantavam no meu cére bro. Sentia-me à entrada de uma vida de perigos, de êxtases, de glórias. Via-me na tolda de um paquete entre os perigos de um naufrágio: ou numa serra espessa, por um grande luar, numa com panhia de contrabandistasque cantam à Virgem; ou no silêncio de uma caravana escoltada de beduínos, acampando no monte das Oliveiras, defronte de Jerusalém. Percorria a Itália; entraria nas cidades ao galopedos cavalos, ao acender o gás, quando a multidão enche os corsos entre fileiras de altivos palácios da Renascença. Via-me em Nápoles, na baia, por um luar calmo; dormindo sob as vinhas em Ísquia; ou na frescura das grutas do Pausílipo, onde ain da choram asnáiades...Aporta abriu-se de repente, um criado en trou com uma carta. Não vi a letra do envelope, não olhei sequer, mas sentia-a! Veio luz. Era verdade, era de Rytmel! Tive-alongo tempo na mão, incerta, trémula. Pu-la em cima da pedra de uma console, fui olhar-me ao espelho, vi-me pálida. No entanto a car ta atraía-me, parecia-me que luzia sobre o mármore branco. Tomei-a, pesei-a, senti-lhe o aroma, e devagar, cansada, suspi rando, comos braços vergados ao peso dela, fuia lentamente abrindo.

VIII

Transcrevo textualmente essa carta terrível:

«Querida: — Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as mi nhas malas fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! Não te esqueças de tirar o teu. Escrevi aminha mãe. Es crevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolu ção. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um pássaro, ou como uma luva: posso pousá-lo sobre atolda de um paquete, pô-lo numa mesa de jogo em cima de uma carta, colocá-lo na ponta de uma espada, ou fechar-to na mão e dar-to. Mas tu pelas condições da tua vida tens um lugardefinido no mundo, li mitado e circunscrito. Estás presa, por um anel de casamento, a uma ordem de coisas, a um certo número de leis, e és na vida co mo um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te se parares violentamente do teu centro legítimo, eu, que tenhoa ex periência das desgraça s, das viagens, e do espectáculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-ão mais estimadoao teu carácter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrai neste momento de mim, da minha honra e da minha fidelidade. Falo do amor, lei ou mistério ou símbolo, força natural ou invenção literária. Fias-te de mais no amor! Aquele amparo superior, aquele apoiosólido e protector, que todo o espírito procura no mundo, e que uns acham na família, outros na ciência, outros na arte, tu parece quereres encontrá-lo somente na paixão, e não sei se issoé justo, se isso é rea lizável!



(continua...)

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