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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E eu agora, furioso com aquela disparada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:

-Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... então vamos arranjar duas mesas... O D. Teotônio há de querer cartas.

E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todos se calavam, parecia encolherem-se ante a aparição do meu Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do Dr. Alípio (um pouco desgarrada do banho das aves tímidas) que lhe dera grande prazer aquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes... ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara “afrontado”, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:

-Está abafado... Ainda temos trovoada!

E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado.

-Com efeito, vai cair água.

As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas; e o ar que agitava as cortinas era intermitente, estonteado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.

Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.

Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que se familiarizaram, escutando, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Alípio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:

-Então tanta pressa, tanto medo, pôr causa duma trovoadinha?

Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu Príncipe:

-Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...

-Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite cerrada!

O volante findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as carruagens esperavam atreladas:

-Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!

-Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.

A criada Quitéria chagava à porta com os braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante, na vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar, se a chuva viesse. E só o D. Teotônio, que tinha até casa apenas meia légua de estrada boa, se não apressava, filiado outra vez no meu Príncipe, que levava para os cantos mais solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia – e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.

Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada – e uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a vitória das Albergarias a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Pôr fim D. Teotônio calçou as luvas pretas e entrou para sua caleche, dizendo a Jacinto:

-Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!

Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:

-Este Teotônio é extraordinário! Sabes o que descobri pôr fim?... Que me toma pôr um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a rstauração de D. Miguel?!

-E tu?

-Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!

-Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tu tens o Príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado.

E sabes quem ele é? o Batista!

(continua...)

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