Por Coelho Neto (1906)
— Paulo, pelo amor de Deus! deixa-me. Não me amofines mais. Se soubesses como tenho este pobre coração não vivias a torturar-me. Hás de sentir mais tarde, deixa estar. Velha assim mesmo e doente, como estou, sempre sirvo para alguma coisa. Deixe estar.
Felícia pôs-se a vociferar na cozinha, atirando panelas.
— Olha, vai lá ver aquela rapariga.
Paulo saiu a conter a negra. Quando ela deu com ele aprumou-se hostilmente, com os olhos muito brilhantes, parados. Ele receou repreendê-la. Chamou-a com mansidão procurando acalmá-la:
— Então, velha? que barulho é este?
A negra avançou e curvando-se, com o braço hirto, como a mostrar alguma coisa ao longe, rouquejou:
— Está ouvindo? Então não é assim? Vosmecê pensa que o mar não conta?
vá lá na praia escutar. Eu estou aqui, estou ouvindo. Que é que ele fez? Mode quê?
Uma voltou, outro não volta. Mode quê? Ela é melhor? não é. Eu também sou mãe. Quem manda está lá em cima.
Saiu precipitadamente ao quintal, o braço erguido para o céu luminoso.
— Ele há de vir também.
— Pois sim, mas é preciso que fiques quieta, que cuides do serviço como dantes. Deus não gosta de gente má. — Má... Quem é que é má?
Resmungou uma obscenidade e foi encostar-se ao fogão, ainda apagado.
— Má. Eu sou mãe como sua mãe! — gritou com fúria frenética fitando nele os olhos lampejantes.
— Sim senhor. Mãe como sua mãe.
Paulo deixou-a e a negra ficou a bradar esmurrando as paredes. Dona Júlia chamou-o:
— Olha, meu filho, o melhor é despedires essa rapariga. Vê se arranjas alguém que fique comigo porque eu até tenho medo que ela me faça alguma coisa, no estado em que está.
— Mas como hei de sair? Quem ficará com a senhora? — Vai e leva a chave. Eu fico só. Não te demores.
Ele hesitou:
— Para fazê-la sair só se eu chamar uma praça.
— Prendê-la? Isso não, coitada! Olha, manda-a cá. — Soergueu-se e chamou: Felícia!
A negra respondeu do fundo da cozinha:
— Nhora!
— Vem cá.
Ela apareceu à porta do quarto com as roupas em frangalhos, o colo seco descoberto, as magras pernas à mostra.
— Chega aqui.
A negra adiantou-se humilde, arrepanhando os andrajos.
— Eu estou doente, não me posso levantar. Se não queres tomar conta da serviço dize porque eu faço um sacrifício e vou assim mesmo para a cozinha.
Rapidamente a negra levou as mãos aos olhos e, atirando-se de joelhos junto à cama, rompeu a chorar.
— Que foi que eu fiz, sinhá? Que foi que eu fiz? Eu não estou quieta no meu serviço? Por que é que vão mexer comigo? Eu não faço mal a ninguém... Coitada de mim!
— Mas ninguém mexeu contigo. Tu é que andas a fazer criançadas, não tens pena de mim que sou tão tua amiga.
— Então eu não quero bem a vosmecê?
— Não parece.
— Eu já abandonei vosmecê?
— Não; mas agora não pareces a mesma Felícia.
— É, vosmecê fala assim... Quem ouvir há de pensar que eu sou exigente, que peço mundos e fundos. Que é que eu peço? Porque falo com meu filho? Então não sou mãe?
Levantou-se de salto, escancarou a porta do quarto, mostrou a cozinha:
— Ele vai para lá, fica comigo, eu converso com ele. Que é que tem? faz mal? Vosmecê não fica até tarde esperando nhonhô? Nhá Violante não esteve ontem aqui? Então eu não vejo? Eu estou calada, estou quieta, mas vejo tudo. Vosmecê é mãe, eu também sou. A dor que vosmecê sentiu eu também senti. O leite é da mesma cor: por ser preta não sinto menos, sinhá.
Ficou a encará-la, com uma expressão dolorosa no rosto escaveirada; e concluiu:
— Mãe é uma só. Eu vou fazer o meu serviço, mas não bulam comigo que eu não bulo com ninguém.
Deu alguns passos e retrocedeu:
— Vosmecê olhe e há de ver; eu vou para o meu serviço, daqui a pouco a cozinha está cheia. Não me deixam fazer nada. Vosmecê fique olhando.
E, arrepanhando as molambos, foi-se. Depois dum silêncio Dona Júlia murmurou:
— É tudo, meu Deus! Uma rapariga tão boa...! Eu é que sou a infeliz. Chego, às vezes, a pensar que espalho desgraças. É o meu caiporismo. Até parece coisa feita. Enfim, há de ser o que Deus quiser.
Vendo o filho encostado à cômoda, pensativo, disse-lhe:
— Vai, tens que fazer. Não te prendas por minha causa.
— E a senhora?
— Não te incomodes comigo.
Ele ainda hesitou. Ela insistiu:
— Vai.
— Então eu vou, porque tenho mesmo que fazer e volto cedo.
— Pois sim. Fecha a porta e leva a chave.
— E se vier alguém?
— Quem vem aqui?
— Quer alguma coisa lá de baixo?
— Não.
— Então até já.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.