Por Adolfo Caminha (1893)
Maria ressonava docemente, com o rosto voltado para a parede, o tronco repousando sobre chumaços de pano onde brilhavam manchas de sangue. Cerca de onze horas moveu-se devagar, abrindo os olhos e soerguendo-se, como quem acorda de um pesadelo; mas faltaram-lhe as forças e repousou novamente.
— “Queria alguma coisa?” perguntou João.
— Onde está meu filho?
— Não te lembres disso agora, vê se descansas...
— Mas onde puseram ele? Está vivo?
— Qual vivo, filha! Pois querias tu que escapasse?
E em tom lamentoso:
— Coitado, ao menos está no céu, livre das misérias deste mundo...
Maria não se conteve: repuxou o lençol, e, com os olhos cheios de água, murmurou numa voz entrecortada pelos soluços:
— Pobrezinho!... Por que não me disseram logo?... — Já te pões a chorar!
Maria do Carmo soluçava com desespero, sentindo crescer dentro de si, no íntimo do seu coração, avassalando-a, abalando todo o seu ser, toda a sua delicada alma de mulher, como um sopro violento e devastador, esse inestimável desgosto que as mães sentem ao ver o filho morto. Ela, que desejava tanto criá-lo, amamentálo com o seu leite, que era o seu próprio sangue, a sua própria vida, amá-lo, adorálo, com toda a força do seu coração!... Era um filho natural, mas era seu filho, nascido em suas entranhas, carne de sua carne, sangue de seu sangue, havia de amá-lo muito...
— Quero vê-lo, deixe-me vê-lo! pediu aflita.
— Que tolice! fez João agasalhando-a melhor. Não pense nisto agora, criatura, os médicos recomendam toda a calma. A criança está morta, que se há de fazer?...
Continuavam os soluços, um choro estugado, interrompido por uma tossezinha convulsa.
— Mau! mau! tornou João.
E, imediatamente, foi buscar o cadáver do filho, depondo-o carinhosamente sobre os joelhos.
Tia Joaquina apareceu, envolvida numa larga coberta de chita feita de retalhos. “— O que era?...”
— Nada, tia Joaquina. Ela que desejou ver o filho, explicou João. Uma imprudência. Até pode lhe fazer mal...
— Vejam a vela, por favor, pediu Maria. Quero ver meu filho...
E ao mirar o rosto lívido da criança, os bracinhos rechonchudos, o filete de sangue escorrendo do nariz como um veio de rubi, a rapariga sentiu um calafrio e um grande vácuo no peito, como se lhe tivessem arrancado um pedaço do corpo. E entrou a soluçar outra vez de um modo tão penoso e comovente que João da Mata não pôde recalcar duas lágrimas, as primeiras de sua vida, que rolaram vagarosas nas suas faces magras, como duas linfas cristalinas na aspereza tosca duma rocha. No dia seguinte, antes do sol nascer, mestre Cosme foi ao fundo do sítio cavar uma sepultura para o pequenino cadáver. João acompanhou-o taciturno. Pararam ao pé de um grande cajueiro, que ficava defronte da casa, e, com pouco, o amanuense viu sumir-se debaixo da terra úmida o corpo do seu primeiro filho.
Mestre Cosme socou bem a areia, nivelou o terreno com os pés, e suspirou com força, como depois de um trabalho penoso.
João assistiu em pé, sem dar palavra, mãos para trás, olhos cravados na terra.
— Pronto! fez o velho pousando a enxada no ombro.
— Bem, murmurou João. E seguiram por entre as ateiras calados e graves.
Seriam seis horas da manhã. No alto de um coqueiro que farfalhava à beira do cercado, cantava uma graúna, e as notas límpidas do seu canto vibravam demoradamente na transparência do ar, sobre a verde monotonia do campo, como um toque de alvorada!
Tinha-se calado o samba havia pouco.
Meses depois, quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal para concluir o curso interrompido, estava nédia e desenvolta, muito corada, com uma estranha chama de felicidade no olhar. A sua presença foi como uma ressurreição. — A Maria do Carmo, hein?! Nem parecia a mesma! — Houve um alarido entre as normalistas: abraços, beijos, cochichos... Até o edifício tinha-se pintado de novo como para recebê-la!
O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em
Educação Física, Educação Intelectual, Educação Nacional ou Cívica, Educação Religiosa... pelos moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o horário das aulas tinha sido alterado, havia uma escola anexa de aplicação, estava tudo mudado!
A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. Liam-se na seção telegráfica da Província as primeiras notícias sobre a proclamação da república brasileira. Dizia-se que o barão de Ladário tinha sido morto a pistola por um oficial de linha, na praça da Aclamação, e que o imperador não dera uma palavra ao saber dos acontecimentos, em Petrópolis.
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.