Por Inglês de Sousa (1891)
A tarde chegara, banhada de aguaceiros sucessivos, e em breve o horror duma noite sem estrelas devia envolver o céu e a terra numa escuridão completa. Padre Antônio remava, pensativo. A previsão das trevas impenetráveis duma noite chuvosa, sem o clarão dum relâmpago, em pleno rio sertanejo, sugeriu-lhe pela primeira vez a idéia da possibilidade dum erro. Duvidou da sanidade do seu cérebro. Uma obcecação fatal devia ter-se apoderado do seu espírito para que não compreendesse a loucura duma viagem nas condições da que fazia. Aventurar-se a um rio despovoado e quase desconhecido, numa pequena montaria de pesca, sem víveres e sem cômodos, não contando com os insetos, com a fome, com as itempéries, com os perigos da navegação realizada com a pasmosa segurança de quem atravessasse de Silves para a foz do Urubus, era coisa muito de admirar em homem que tinha por obrigação ser sisudo e prudente. Começara a viagem numa excelente igarité, espaçosa e segura, tripulada por dois remeiros vigorosos e práticos, sortida de víveres abundantes e de tudo mais que era preciso numa viagem ao sertão. Como, porém, perdera tudo isso, metera-se-lhe na cabeça, num momento de insensatez, continuar a viagem a todo o transe, custasse o que custasse, para não retroceder. Agora uma dúvida atroz estava-lhe atravessando o espírito. Fora o exemplo da coragem sobre-humana dos mártires antigos que o levara àquele passo, ou uma tentação demoníaca que lhe excitara a vaidade pueril de não parecer vencido por obstáculos triviais? De relance esta última idéia iluminara-lhe o entendimento. O inimigo da alma insinuara aquela inqualificável teima, que o desarmava para sempre. A continuação da viagem, depois da perda da igarité, fazia abortar a missão pela impossibilidade física de a levar a fim. Os mundurucus ficariam ainda por muitos anos nas trevas da barbaria. A Igreja perdia esses novos crentes, e o moço padre, em vez do quinhão de glória com que sonhara assegurar a salvação eterna, acabaria desconhecido e miserável.
A escuridão da noite que se avizinhava entenebrecia-lhe cada vez mais os pensamentos. A convicção de que fora vítima do pecado naquela empresa santa, penetrava-o. Lera que muitas vezes Satanás se serve das mais santas causas para preparar a queda das frágeis criaturas de Deus, e reconhecia no intimo do coração que carecera da humildade cristã que ampara e fortalece contra as tentações da soberba. Sondando o fundo da consciência reconhecia, e o confessava a Deus Misericordioso; não haviam sido tanto o ardor da propaganda e o zelo da catequese que o tinham feito obstinar-se naquela empresa impossível. Aniquilado, sentindo toda a vileza do seu caráter, toda a lama mole do seu orgulho, não o ocultava por mais tempo a Deus, como o procurara fazer a si mesmo, que foram talvez a teima, a obstinação casmurra, talvez o receio daquele terrível escarnecedor de padres que ria das suas ladainhas e dos seus olhos baixos. Um grande desprezo de si o invadia, era o último dos últimos, a própria abjeção saturava-o. Joguete vil do demônio (nenhum móvel elevado e nobre o impelira aos sertões da Mundurucânia. Era uma criatura desprezível, merecedora da sorte que o destino implacável lhe preparava nas inóspitas paragens sertanejas. Corpo apodrecido de vaidade balofa, inchado de ignorância, envenenado pela inveja e secretamente roído por uma luxúria ardente, digno era de servir de pasto aos urubus asquerosos, empestando o ar e excitando a gulodice dos vermes.
Comprazia-se no rebaixamento da sua personalidade, no exagero dos seus defeitos, no aviltamento de tudo quanto lhe era mais caro, e dessa humildade extrema em que pedia a Deus o perdão do seu maior pecado, vinha-lhe um grande abatimento que a fadiga e a fome aumentavam.
Viera a noite e a chuva caía sempre, obrigando os viajantes a deixar os remos e a esgotar a água que a canoa fazia por todo o costado. Não fora possível fazer fogo para preparar a comida. Abeirados a um estirão de terra que se lhes deparara, fora preciso passar ali a noite toda, interminável e chuvosa, na escuridão. A chuva já não dava em bátegas, mas num fino e frio chuvisqueiro, contínuo e monótono, penetrando os ossos. Do Canumã, das margens alagadas, do seio da floresta, embebida em água, vinham vapores úmidos, um grande cheiro de barro, de madeiras molhadas, de folhas secas repassadas de água, de paus apodrecidos, de lama revolvida. E do céu tenebroso e infinito a chuva caía ainda, trocando umidade por umidade, e saturando de água a terra, como se lhe quisesse extinguir o ardor do seio com um novo dilúvio fecundante.
Naquele dia o sacristão Macário fora sentar-se à beira do rio, sobre um tronco verde, sem querer ouvir os discursos com que padre Antônio de Morais procurava confortá-lo, ou iludi-lo, como fizera até ali. Deixava-se estar abismado nos profundos pensamentos que substituíam a alegre despreocupação de outrora. Depois daquela horrorosa noite de chuva, passada em densas trevas à margem do Canumã, não houvera remédio senão prosseguir na viagem, uma vez novamente calafetada a reles montaria do Guilherme, em busca do maldito porto dos Mundurucus, cada vez mais distante, e que, naquela ocasião de desespero, oferecia-lhes um fim e um abrigo, fosse embora esse fim a morte, e esse abrigo a sepultura.
A infame covardia de que agora Macário com maior indignação se acusava, à luz do sol dum belo dia, o levou naquela ocasião a consentir na continuação da viagem, pelo desânimo que dele se apoderara, cansado, faminto, molhado, incapaz dum ato de energia, cedendo à fatalidade que o arrastava para o abismo pelo órgão daquele padre endemoninhado. E o resultado de mais essa fraqueza, quando já tantas decepções e infelicidades o haviam castigado, fora arriscá-lo ao maior perigo que jamais correra em dias da sua vida. Ah! o sargento de polícia espancava-o, padre José, que Deus houvesse, descompunha-o, mas nenhum deles pensara em mandá-lo para os anjinhos! Fora preciso que viesse a Silves padre Antônio de Morais para que Macário de Miranda Vale fosse o mais infeliz dos homens!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.