Por Franklin Távora (1878)
Ele mesmo, esse velhaco, essa pústula do foro, que vive especialmente de promover a alforria dos negros dos engenhos para passar as unhas no magro cobre deles e fazer pirraça aos senhores. ninguém ainda se inculcou tão amante da liberdade, tão independente, tão probo como ele: a verdade, porém, é que ele não passa de um saltimbanco audaz, um charlatão formado em tretas e torpezas que despertam nojo. Mal acabadas estas palavras, novo bando que vinha nas pisadas do primeiro, parou diante da casa e repetiu o pregão, que ainda soava aos ouvidos dos fidalgos:
- Morra o assassino! Morra a escopeteira!
- Quereis saber, Sr. Cosme? disse subitamente o sargento-mór. Ide vós a vosso destino, que eu fico. Há de vir terceiro grupo parar em frente de minha casa, e é preciso que eu esteja presente para dar-lhe a resposta que merecem. Roberto, Roberto? Gritou João da Cunha da porta que punha em comunicação o armazém com a entrada. Carreguem as armas e venham colocar-se todos vocês em seus postos. Ao terceiro insulto quero ouvir soar o fogo.
- Os cavaleiros partiram, enquanto o sargento-mór, quase fora de si, subia para junto de sua mulher. Por seu gosto estaria nas ruas, promovendo a reação ou a contrarevolta. Mas compreendia que naquele momento não lhe era licito arredar-se de casa. Preste atenção, Sr. João da Cunha, disse-lhe d. Damiana, chegando a uma das janelas da sacada onde estava o marido. Não ouvis ruído de pancadas contra as portas na Rua-direita?
- Estou ouvindo. Quem sabe se já não é o saque?
- O saque!
- Quando a plebe se solta, é aí que vai parar. Mas onde está e o que tem feito desde a tarde Antonio Rabelo com sua força? Oh não poder eu sair!
Enquanto assim falava o senhor-de-engenho, Cosme corria à Rua-do-meio a tomar o comando da pequena força que se achava sob as ordens do alferes Maciel. Seus grandes espíritos não se compadeciam com a reação morna e frouxa. De caminho, ele descavalgava aqui para dar uma ordem, ou combinar uma providencia; arrojava-se acolá temerariamente sobre os adjuntos e impunha-lhes que se desfizessem. Se era atendido, passava; se não era, empregava meios indiretos de o ser. Esses meios eram a brandura, a persuasão, a ameaça. Faltava-lhe gente para desempenhar satisfatoriamente o papel que teve nesse, como nos principais motins de Goiana; mas todas as faltas supria admiravelmente sua intrepidez por todos reconhecida de há muito e glorificada depois pelo historiador.
Logo que tomou o comando da força, encaminhou-se com ela à cadeia, para onde tinham ido Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti a reunir-se com Antonio Rabelo, receosos de que os amotinados tentassem soltar os presos.
Antonio Rabelo foi de parecer que se não procurasse dissolver os ajuntamentos.
- Onde temos nós gente suficiente para dissolver essas multidões numerosas, Sr. Capitão? Perguntou ele a Cosme. Guarnecem a cadeia dezesseis praças unicamente. Se daqui arredarem o pé, o povo levantado virá abrir as prisões, e aumentará com os criminosos o seu numero e a sua ferocidade. Vós não tendes ai convosco mais de vinte ordenanças. Julgais que com tão pequena força poderemos bater os rebeldes e ficar senhores do campo?
- Basta uma corrida forte e violenta sobre os inimigos, para que, cobrando medo, se dispersem.
- Estais enganado. Eles são muitos e não lhes faltam armas. Armas? Não as têm.
Têm-nas, Sr. capitão., têm-nas. Reparai nos que passam. Haveis de ver cada um com seu arcabuz. Os mascates fizeram e fazem larga distribuição delas por seus asseclas. O que me espanta é que ainda não se tenham lembrado de vir atacar este posto, tão fraco quão arriscado.
Mal tinha Antonio Rabelo acabado estas palavras, quando uma massa negra começou a aparecer no principio da rua. Deus queira que eu me engane. Mas, ao que parece, vem ali gente para nos dar que fazer toda esta noite – disse Antonio Rabelo.
E logo mandou dobrar as guardas, e à frente da cadeia estendeu o restante da força.
- Quereis ir ao encontro do bando, Sr. capitão? perguntou Diogo Maciel, impaciente por atirar-se ao tumulto onde mais tarde praticou atos de distinta bravura. - Não; agora não enfraquecerei este ponto com a minha ausência. Os rebeldes vêm direitinhos para cá.
De feito, não tomaram eles outra direção.
O bando, passante de cem homens, vinha preparado para entrar em fogo e era capitaneado por Jeronimo Paes e seus filhos. Sua intenção era a que já tinha sido prevista – a de soltar os criminosos.
Obra de cinquenta passos antes, Antonio Rabelo intimou-lhes que passassem de largo.
Jeronimo Paes, sem se importar com esta voz, deu ainda alguns passos para diante. Rabelo mandou distribuir cartuchos e carregar. Então a multidão fez alto a respeitosa distancia.
- - Que querem, bandidos? Perguntou fora de se Cosme Bezerra, mal podendo suster as rédeas ao cavalo, pela cólera que o tomava. Bandido sois vós – respondeu Jeronimo Paes.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.