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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Há outras árvores de muita estima, a que os índios chamam ubiracica; tem honesta grandura, de cuja madeira se não aproveitam, mas valem-se de sua resina, de que lança grande quantidade, e quando a deita é muito mole e pegajosa; a qual é maravilhosa almécega, que faz muita vantagem à que se vende nas boticas, e para uma árvore lançar muito picam-na ao longo da casca com muitos piques, e logo começa a lançar por eles almécega, que lhe os índios vão apanhando com umas folhas, aonde a vão ajuntando e fazem em pães.Esta almécega é muito quente por natureza, da qual fazem emplastos para defensivo da frialdade, e para soldar carne quebrada, e para fazer vir a furo postemas, os quais faz arrebentar por si, e lhes chupa de dentro os carnegões, e derretida é boa para escaldar feridas frescas, e faz muita vantagem à terebintina de bétula; com a qual almécega se fazem muitos unguentos e emplastos para quebraduras de perna, à qual os índios chamam icica.Corneíba é uma árvore que na folha, na flor, na baga e no cheiro é a aroeira da Espanha, e tem a mesma virtude para os dentes, e é diferente na grandura das árvores, que são tamanhas como oliveira, de cuja madeira se faz boa cinza para decoada nos eneenhos. Naturalmente se dão estas árvores em terra de areia, debaixo de cujas raízes se acha muita anime que é, no cheiro, na vista e na virtude como a de Guiné, pelo que se entende que o destila de si, pelo baixo do tronco da árvore, porque se não acha junto de outras árvores.Em algumas partes do sertão da Bahia se acham árvores de canafístula, a que o gentio chama geneúnia, mas de agrestes dão a canafístula muito grossa e comprida; e tem a côdea áspera, mas quebrada, e da mesma feição, assim nas pevides que tem como no preto; que se come e tem o mesmo saibo, da qual não usa o gentio, porque não sabe o para que ela presta. Em algumas fazendas há algumas árvores de canafístula, que nasceram das que foram de São Tomé que dão o fruto mui perfeito como o das Índia.Cuipeúna é uma árvore pontualmente como a murta de Portugal, e não tem outra diferença que fazer maior árvore e ter a folha maior no viço da terra, a qual se dá pelos campos da Bahia, cuja flor e o cheiro dela é da murta, mas não dá mur-tinhos; da qual murta se usa na Misericórdia para cura dos penitentes e para todos os lavatórios, para que ela serve, porque tem a mesma virtude dessecativa.Ao longo do mar da Bahia nascem umas árvores que têm o pé como parras, as quais atrepam por outras árvores grandes, por onde lançam muitos ramos como vides, as quais se chamam mucunás, cujo fruto são umas favas redondas e aleonadas na cor, e do tamanho de um tostão, as quais têm um círculo preto, e na cabeça um olho branco. Estas favas para comer são peçonhentas, mas têm grande virtude para curar com elas feridas velhas desta maneira: depois de serem estas favas bem secas, hão-se de pisar muito bem, e cobrir as chagas com os pós delas, as quais comem todo o câncer e carne podre.Criam-se nesta terra outras árvores semelhantes às de cima, que atrepam por outras maiores, que se chamam o cipó das feridas, as quais são umas favas aleonadas pequenas, da feição das de Portugal, cuja folha pisada e posta nas feridas, sem outros unguentos as cura muito bem.Há uns mangues, ao longo do mar, a que o gentio chama apareíba, que têm a madeira vermelha e rija, de que se faz carvão; cuja casca é muito áspera, e tem tal virtude que serve aos curtidos para curtir toda a sorte de peles, em lugar de sumagre, com o que fazem tão bom curtume como com ele. Estes mangues fazem as árvores muito direitas, dão umas candeais verdes compridas, que têm dentro uma semente como lentilhas, de que elas nascem.

C A P Í T U L O LXI
Daqui por diante se vai relatando as qualidades das ervas de virtude que se criam na Bahia, e comecemos logo a dizer da erva-santa e outras ervas semelhantes.


Petume é a erva a que em Portugal chamam santa; onde há muito dela pelas hortas e quintais, pelas grandes mostras que tem dado da sua virtude, com a qual se têm feito curas estranhas; pelo que não diremos desta erva se não o que é notório e todos, como é matarem com o seu sumo os vermes que se criam em feridas e chagas de gente descuidada; com a qual se curam também as chagas e feridas das vacas e das éguas sem outra coisa, e com o sumo desta erva lhe encouram. Deu na costa do Brasil uma praga no gentio, como foi adoecerem do sesso e criarem bichos nele, da qual doença morreu muita soma desta gente, sem se entender de quê; e depois que se soube o seu mal, se curaram com esta erva-santa, e se curam hoje em dia os tocados deste mal, sem terem necessidade de outra mezinha.A folha desta erva, como é seca e curada, é muito estimada dos índios e mamelucos e dos portugueses, que bebem o fumo dela, ajuntando muitas folhas destas torcidas umas às outras, e metidas num canudo de folha de palma, e põe-se-lhe o fogo por uma banda, e como faz brasa metem este canudo pela outra banda na boca, e sorvem-lhe o fumo para dentro até que lhe sai pelas ventas fora. Todo o homem que se toma do vinho, bebe muito deste fumo, e dizem que lhe faz esmoer o vinho. Afirmam os índios que quando andam pelo mato e lhes falta o mantimento, matam a fome e a sede com este fumo, pelo que o trazem sempre consigo, e não há dúvida senão que este fumo tem virtude contra a asma, e os que são doentes dela se acham bem com ele, cuja natureza é muito quente.Pino é pontualmente na folha, como as que em Portugal chamam figueira-do-inferno. Esta erva dá o fruto em cachos cheios de bagos, tamanhos como avelãs, todos cheios de bicos; cada um destes bagos tem dentro um grão pardo, tamanho como um feijão, o qual pisado se desfaz todo em azeite, que serve na candeia; bebido serve tanto como purga de canafístula; e para os doentes de cólica, bebido este azeite, se lhe passa o acidente logo; as folhas desta erva são muito boas para desafogarem chagas e postemas.Jeticuçu é uma erva que nasce pelos campos e lança por cima da terra uns ramos como batatas, os quais dão umas sementes pretas como ervilhacas grandes; deitam estas ervas uma raízes por baixo da terra como batatas, que são maravilhosas para purgar, do que se usa muito na Bahia; as quais raízes se cortam em talhadas, em verdes, que são por dentro alvíssimas e secam-nas muito bem ao sol; e tomam dessas talhadas, depois de secas, para cada purga o peso de dois reais de prata, e lançando em vinho ou em água muito bem pisado se dá a beber ao doente de madrugada e faz maravilhas. Destas raízes se faz conserva em açúcar raladas muito bem, como cidrada, e tomada pela manhã uma colher desta conserva faz-se com ela mais obra, que com açúcar rosado de Alexandria.Pecauém são uns ramos que atrepam como parra, cuja folha é pequena, redonda e brancacenta; as suas raízes são como de junça brava, mas mais grossas, as quais têm grande virtude para estancar câmaras; do que se usa tomando uma pequena desta raiz pisada e lançada em água; posta a serenar e dada a beber ao doente de câmaras de sangue lhas faz estancar logo.


C A P Í T U L O LXII
Em que se declara o modo com que se cria o algodão, e de sua virtude, e de outras ervas que fazem árvore.

(continua...)

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