Por Eça de Queirós (1870)
— Tudo isso não quer dizer nada.- Oh, minha querida amiga... — A sua querida amiga — interrompi — nada mais pede que um coração franco e recto.São tudo, pois, imaginações minhas? Não há nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma coisa, e juro-lhe que é irremissível, juro que o digo em toda a frieza do meu juízo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o cálculo mais positivo...- Mas, meu Deus! Diga...
— E esta resolução, aceita-a?- Uma resolução... E o que envolve ela? — Envolve a única coisa possível, a única que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. Aceita?- Mas como não hei-de aceitar?...
— Pois bem — comecei eu.E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face numa voz ar dente como um beijo: — Fujamos amanhã. Rytmel empalideceu levemente e retirando devagar as suas mãos de entre a pressãodas minhas:
— E sabe que é uma coisa irreparável?- Sei. Ele sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no entanto, de pé junto dele, com a minha mão pousada sobre o seu ombro, dizia-lhe como num murmúrio de um sonho:- Pensava nisto há um mês. Vamos para Nápoles. Vamos para onde quiser. Adoro-te...
É como uma pessoa que se deixa adorme cer. Adoro-te, e quero viver contigo...Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lágrimas.
— Meu Deus! Rytmel, tu choras...
— Não, não, minha querida! Estava pensando em minha mãe, que não torno talvez a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!
E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como selando um pacto eterno.
VII
Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty. — Betty — disse eu fechando a porta do quarto. — Betty, de pressa, quero dizer-te umacoisa. Não me digas que não...
— Santo Deus! Sossegue, descanse, minha querida menina! Jesus, como vem pálida! — Betty, é uma coisa irreparável..., devia ser. Foi pensada a sangue-frio. Vês comoestou tranquila, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução digna. Betty, não me digas que não!...Mas, minha rica senhora...
— Não se podia voltar atrás. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão feliz! — Bem feliz, ao menos?- Doidamente. E se não fosse assim, morria...
— Mas então...- Fugimos amanhã. Ela estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que apa reciam lágrimas, e sufocada, com as mãos juntas:- E eu?
Atirei-me aos seus braços. — Pois havias de ficar, Betty? Tu vens connosco, Betty.E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando rou pas, batendo as palmas e gritando:- Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja!, arranja!
Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, triunfava: a minha vida aparecia-me, larga, cheia, esplên dida, coberta de luz. Entrei nas modistas, olhei,escolhi, comprei, com impaciências de noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.- Partes? — perguntaram-me.
— Para França. — Com a guerra?- Não há guerra. E, havendo, não é interessante ver matar prussianos?!
À porta do Sassetti, encontrei Carlos Fradique.- Sabe que parto amanhã? — disse-lhe eu. — Sabe que parto hoje? — respondeu-me. — Ia lá, apertar-lhe a mão. — Mas é inesperado isso! Vai para França? Para quê?- Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve ha ver atitudes de mortos muito curiosas.- Mas vai debalde. Não há guerra. É positivo. Por isso eu vou para Itália.
— Vai para Itália?... Mas, então... Ah! Vai para Itália? Minha pobre amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qual quer parte, ou feliz, ou triste, para a consolar, oupara fazer um trio com o meu violoncelo, sou eu, adesso e sempre. Apertou-me a mão. Não sei porquê, aquelas palavras deram-me uma sensação triste.Quis ir ao Aterro. A tarde caía. A água tinha uma imobilidade luminosa. Do outro lado os montes estavam esbatidos num vapor azulado e suave. Sobre o mar havia nuvens inflamadas, de uma cor fulva, como no fundo de uma glória. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz. Sentia-me vagamente melancólica. O rio, aquelas casas triviais, todos aqueles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até aí quase inexpressivos, apareciam-me, pela últimavez que os via, com uma feição simpática. Tive uma saudade piegas daqueles lugares: quis sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquela paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-Hotel, a grosseira e escura Rua do Arsenal, todas essas coisas alheias a mim,me despertavam inesperadamente o desejo instintivo de tranquilidade, de família, de situações pacíficas, fazendo destacar no fundo da minha vida, num relevo negro, a aventuraque eu ia intentar; e aparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas coisas irrepará veis, no exílio e na morte!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.