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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: - e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador... Mas não se produziu um único riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, pôr cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de príncipes e princesas, misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço negro... Perante o gancho da Princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação inocente da tia Vicência: -Ó! filho, que coisas!

Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora – todos, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos murmúrios, em torno da mesa, que definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do Dr. Alípio na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um silêncio – e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.

-Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.

Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, também de pé, atirando para trás a sobrecasaca:

-Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida pátria! E que pôr cá fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu velho!

Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa oratória, positivamente, não incendiara as imaginações!

A tia Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peônia. Depois foi o encadeamento de saúdes, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras – quando d. Teotônio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:

-Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!

Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam – eu dei o braço à tia Albergada.

E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de Dr. Agudo: - “Espero que ao menos, cá pôr Guiães, não se erga de novo a forca!...” E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotônio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas duma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, pôr Deus! O bom D. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista – e, na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo duma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio duma influência rica, nova, nas Eleições próximas, e a nascente, e a nascente irritação contra as velhas idéias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o Dr.Agudo.

-Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?

Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:

-Até corre, como certo, que o Príncipe d. Miguel está com ele em Tormes!

E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio – tão agudo! – confirmou:

-É o que corre... disfarçado em criado!

Em criado? Ó! Santo Deus! Era o Batista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. – Pois não corria, que o filho de D.

Miguel estava em Tormes, escondido?...

-Disfarçado em lacaio – confirmou logo o digno Rebelo.

Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:

-Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...

Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho d. Teotônio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.

-Extraordinário! Vejo que aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas idéias...

Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:

-É conforme o que V. Exª chama boas idéias.

(continua...)

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