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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Que é?

— Mamãe... Olha como está. Não vá ser do coração, meu Deus. — Eu já contava com isto.

Foi precipitadamente ao quarto, trouxe um vidro d'água sedativa. A velha não fazia o menor movimento; a respiração era estertorosa e cerrada.

— Nem há aqui uma pessoa para chamar um médico. Espera, eu mando o cocheiro. Aqui mesmo na Rua da Lapa há um.

Correu à sala, deu uma ordem. O carro partiu. Tornou para junto da irmão, atônita. Por fim, como se se habituasse, sentou-se calma.

— É o coração, — cochichou Paulo.

Violante fez um gesto de desânimo. O relógio bateu vagarosamente no silêncio.

— Nove e meia! — exclamou em voz surda, alarmada. — E eu que não preveni Lucília. O homem é capaz de pensar que ando por aí...

— Dize-lhe o que houve.

— E pensas que ele acredita? Pois sim. — Inclinou-se, pôs-se a chamar a mãe, não para aliviá-la, mas para libertar-se. — Não tens um pouco de éter?

— Não.

— A que horas vou eu sair daqui, meu Deus! E o médico? Ainda se ele chegasse...

— Se queres, vai. Eu fico com ela.

— Não! Isso não. Não quero que ela se zangue.

— Zangar-se, por quê?

— Se eu fosse livre, mas tu compreendes. — Ao rumor do carro Violante correu à sala, abriu a janela. Estava um homem parado à porta. — É o doutor? — Sim, minha senhora.

Era um homem de idade, alto, magro, feição austera. Entrou vagarosamente e perguntou, em voz pausada, pela doente.

— É minha mãe, doutor. Está lá dentro, teve uma síncope. Nem tivemos tempo de a levar para a cama. Foi de repente. Entre, doutor.

Falava com grande volubilidade, voltando-se para o médico, que a seguia, sempre vagaroso. Justamente chegavam à sala de jantar quando Paulo sussurrava palavras meigas à mãe que parecia haver recobrado os sentidos. Efetivamente abria os olhos, balbuciava, movia a cabeça como atordoada. Violante precipitou-se:

— Então, mamãe? Está melhor? Olhe o doutor. É melhor deitá-la, a senhor não acha?

Lançou um rápido olhar ao relógio e franziu a fronte contrariada. O médico fez um ligeiro exame, receitou um calmante, recomendou repouso. Paulo segredou:

— Ela é cardíaca, doutor. Não há perigo?

— Sim, é preciso cuidado. Se houver alguma coisa mande-me um recado.

Despediu-se. Dona Júlia sentia-se alquebrada, faltavam-lhe as pernas, todo o corpo doía-lhe. Ampararam-na até a cama. Deitando-se, olhou para Violante enternecidamente, dizendo:

— Nem conversamos, minha filha. Isto está por pouco. Quando vocês mal pensarem estou morta. Também, que faz um trambolho como eu no mundo? — Deixe-se disso, mamãe.

Violante ia e vinha, arranjava os travesseiros, estendia, alisava a colcha, aparentando cuidados que não encobriam a sua impaciência; animava-a, prometia ser muito assídua.

— Estarei aqui sempre, há de ver. Quando estiver triste venho para cá passar o dia ou a senhora vai lá para casa fazer-me companhia. Havemos de viver como dantes.

Sentou-se estabanadamente na cama, abraçou a velha que se conservava de olhos baixos, em atitude de humildade e de resignação.

De repente ergueu-se e, assustada, procurando o relógio entre as rendas soltas, exclamou:

— Dez e meia! Nossa Senhora!...

— Vai, minha filha. Deus te abençoe.

— A senhora não precisa de mim, felizmente. Até amanhã.

Beijou-a nas faces, beijou-lhe a mão. Saindo à sala, ouviu um estrupido surdo e uma voz soturna que resmoneava.

— Que é isso, Paulo?

— Que há de ser? É Felícia com as maluquices. — Que agouro! Credo!

Ainda falou para o quarto: Até amanhã, mamãe.

— Vai com Deus.

— Adeus, Paulo. A que horas vou eu chegar a casa.

Seguiu ligeiramente pela corredor, com um rascante esfrolar de sedas, deixando um rasto de perfume. Paulo saiu à rua acompanhando-a ao coupé.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

CAPÍTULO XVIII

Dona Júlia não se pôde levantar na manhã seguinte.

Quando Paulo entrou no quarto para vê-la, achou-a a chorar.

— Que tem, mamãe?

— Nada. Deixa-me. Também não possa chorar?

— Mas isso faz-lhe mal. O médico recomendou a maior calma.

— Ora, o médico... O médico sabe lá o que eu tenho. Não hei de chorar. Ver minha filha assim... Eu mesma não sei que é que você pensa, rapaz. Ninguém era mais severo, agora só porque ela anda de carro, coberta de jóias, já você não se importa. Pois eu não. Preferia... — calou-se recalcando a frase que lhe subira do coração e ficou um momento de olhos perdidos, arfando.

— Que hei de eu fazer? Só se a senhora quer que eu lhe feche a porta. Se quer...

Ela não respondeu.

— Fiz o que fiz porque a senhora vivia chorando por ela. Eu devia ter ficado quieto. É assim: nunca o que faço agrada. Eu é que sou tolo.

(continua...)

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