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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Sua criada Joana Pataca.

— Já verificou se a criança está perfeita, se não há novidade?

— Ora, ora, ora... há que tempo! Daqui a pouquinho o menino está fora, se Deus quiser.

O amanuense encarou por cima dos óculos, com ar de desconfiança, o todo obeso da mulher. E, sentando-se:

— A senhora tem licença para assistir?

Não era preciso licença, não senhor. No Ceará qualquer mulher podia ser parteira contanto que merecesse confiança. Ela, Joana Pataca, era muito conhecida no Outeiro, por sinal tinha partejado uma vez a mulher do comandante do batalhão...

— Vossemecê duvida?

— Não, não... é que eu queria saber... Então não é preciso licença?

— Inhôr não. É qualquer uma.

— Está bom, está bom... Mas não se descuide... Olhe, não vá esquecer...

A parteira pousou no chão o cachimbo, que estivera fumando, e foi aquecer uns panos.

Deu meio-dia e a rapariga não teve a criança. As dores tinham melhorado um pouco. Tia Joaquina batia os beiços rezando “— Tenha paciência, minha filha, tenha fé no Senhor do Bonfim”, dizia ela muito solícita.

João da Mata passou todo esse dia na Aldeota, aguardando o sucesso, bebendo aguardente e acendendo cigarros, esquecido da repartição.

Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata, escanchado na Coruja.

Fazia um belo dia de sol, calmo e luminoso. O arvoredo imóvel dormitava na esplêndida pulverização da luz que o narcotizava para beber-lhe a seiva. O passaredo aninhava-se na verde espessura dos cajueiros em flor, contubernal e gárrulo; rolas bravas debicavam nas clareiras os minúsculos diamantes que o sol punha na areia. E no silêncio e na beatitude daquela espécie de eremitério João pôde dormir um sono bom de duas horas, embalado pelos gemidos da afilhada como por um vago e monótono estribilho trespassado de melancolia.

Às sete horas da noite, ao acender-se a primeira vela, Maria teve um sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fortíssima dor no baixo-ventre, muito branca, o olhar desvairado e os cabelos em desordem.

— Que é isso, comadre! repreendeu a parteira agarrando-a. — Minha filha! fez tia Joaquina.

E em pé, entre as duas mulheres, com a cabeça arqueada para trás, contorcendo-se numa aflição suprema, a rapariga soltava gemidos estrangulados, cortada de dores, agarrando-se como uma louca ao pescoço das velhas, no bico dos pés, em camisa.

Houve uma confusão extrema.

— Sente-se, comadre, sente-se, por amor de Deus! suplicava a parteira, agarrando-a com jeito.

— Sente-se, minha filha, repetia a outra.

João da Mata acudiu gelado.

— Calma! calma! bradou estacando à porta do quarto.

Mas era tarde. Ouviu-se uma pancada surda no chão, como a queda de um bolão de barro úmido e, imediatamente, rios de sangue jorraram aos pés da parteira, e no linho branco da camisa de Maria do Carmo desenhou-se larga faixa rubra, de alto a baixo, como uma bandeira de guerra desdobrada.

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo.

E Maria tombou como um fardo, sem sentidos, na rede fria.

Passou-se a noite às voltas. O amanuense resolveu não chamar médico — que era uma asneira, o perigo tinha passado. A parturiente adormecera, profundamente, depois de lhe terem ministrado um hidromel de aguardente.

Sobre uma grande caixa de pinho, a um canto do quarto, envolvido em panos, o recém-nascido — uma criança nutrida e robusta — dormia o sono eterno, roxo, de olhos fechados, as gordas mãozinhas cruzadas sobre o peito, com um fio de sangue a escorrer-lhe do nariz.

João não pregara olhos, pensativo, com a calva entre as mãos, ao lado da afilhada. — Era o diabo, era o diabo! Até lhe doía a cabeça! Grandíssima besta, a parteira, que nem ao menos soubera apanhar a criança! Estúpida! deixar morrer uma criança tão bem-feita e nutrida! Isso só acontecia a ele, João da Mata.

De meia em meia hora acendia um cigarro automaticamente e punha-se para ali a ruminar silenciosamente, à luz duma triste vela de carnaúba, que pingava a sua cera denegrida, no gargalo duma velha botija de genebra, esbatendo ao fundo do quarto o perfil do recém-nascido.

Diabo! pensava o amanuense quebrando a cinza do cigarro. Um caiporismo! Tantos cuidados, tanta aflição, e, afinal de contas, lá ia tudo águas abaixo. Por um lado era uma felicidade o pequeno ter morrido, porque isso de filho natural sempre dava que falar às más línguas e até podia-se descobrir a verdade.

Consolava-se com esta idéia.

Perto, numa palhoça vizinha, havia um samba que durava desde o anoitecer. No silêncio da noite ecoava um alarido medonho, vozes aguardentadas, sapateados que estremeciam o chão, cantos, desafios ao som duma viola cansada.

(continua...)

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