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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O céu começava a toldar-se de nimbos carregados que se cerravam no horizonte em espessa muralha cinzento-escura, denunciando a borrasca em que se ia transformar de súbito aquela esplêndida manhã de verão. Precedida dum bando de maguaris que vinham voando com pios aflitivos, uma nuvem negra aproximavase com rapidez, e em breve cobria o sol com uma cortina escura que sombreou a superfície do rio e encheu a floresta de mistério. Uma forte lufada que vergou a coroa dos miritis e das juçaras, levantou as folhas secas que lastravam o solo, e que se puseram a correr ao sabor do vento com um ruído de maracá selvagem. As nuvens acumuladas chocaram-se, desprendendo a faísca elétrica, medonho trovão abalou a terra, indo estourar por trás da cordilheira com eco surdo e longínquo. Macário acordou sobressaltado.

Começou logo a chuva a cair em grandes bátegas de água, rufando nas folhas das árvores, e um cheiro acre e intenso de barro molhado de fresco subiu da terra. Lagartos e calangros correram a abrigar-se nas junturas das pedras e nos tocos negros dos madeiros a meio carcomidos pelo tempo. Os passarinhos trataram de esconder-se no mais denso do mato em prudente silêncio. O rio, pálido, manchado de pingos pardacentos, agitava-se num balanço frouxo, sacudindo os periantãs que se desprendiam da margem e punham-se a viajar na correnteza.

Era preciso primeiro que tudo cuidar da canoa, que não podia ficar exposta à chuva, e que deviam cobrir com o japá e alguns ramos de árvore. Depois iriam abrigar-se sob a copada cuieira que dali estavam vendo, e cujos ramos entrelaçados de parasitas multicores ofereciam um resguardo suficiente.

— Isto é chuva de trovoada, logo passa, terminou padre Antônio, indo com o companheiro para o abrigo da cuieira.

Mas a chuva recrudescia de violência, varando a ramagem da cuieira, e caindo em cheio sobre o padre e o sacristão que se foram meter sob o japá da canoa, guardando uma posição incômoda por largo espaço de tempo, na esperança de ver raiar o sol entre as nuvens que escureciam o horizonte. Não cessava a chuva e o bom tempo podia não voltar antes do cair da noite. Era, pois, melhor continuar a viagem, debaixo de toda aquela carga de água, já que a não podiam evitar sem maior sacrifício.

— Afinal, disse padre Antônio, a chuva não quebra ossos.

Macário não partilhava dessa opinião, mas obedeceu com surda rebeldia. Lembrava-se de um certo reumatismo antigo que lhe torturava os músculos das costas, sempre que pilhava algum resfriamento. A posição que deixava ao incômodo abrigo do japá da canoa não era, a falar a verdade, muito tolerável, e prudente parecia a resolução do senhor vigário, mas nem por isso ficava o Macário satisfeito. A raiva aninhava-se acesa no seu coração de homem honrado. Não seria obrigado àquele extremo de atirar-se às intempéries, numa obediência passiva, se padre Antônio não se tivesse lembrado da existência dos mundurucus em terras do Amazonas, e, por maior desgraça, da existência dele, Macário de Miranda Vale, que não era mundurucu nem nada. A idéia de fugir, de escapar por qualquer modo àquela situação impossível pregou-se-lhe no meio do cérebro. Ou por maquiavelismo ou por outra forma que achasse ao seu alcance. Nossa Senhora do Carmo valer-lhe-ia, como já lhe havia valido tantas vezes.

O vigário ia atento, governando o jacumã com redobrado cuidado. Da foz do Mamiá em diante, o Canumã estreitara muito. As margens tinham aspecto mais selvagem e a navegação não ficava isenta de perigo. A corrente era difícil de vencer, obrigando a canoa a navegar perto da beira para aproveitar o remanso. Isso alongava a viagem pelo desdobramento da sinuosidade do rio e arriscava a montaria ao desabamento das terras, a bater num tronco de árvore ou encalhar em algum banco de areia. A viagem atrasara-se. Apenas a embarcação se distanciara algumas braças da foz do Mamiá, que atravessara com dificuldade.

(continua...)

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