Por Aluísio Azevedo (1881)
— Essa é melhor' Não vai! Então que veio você fazer conosco senão guiarnos?
— Sim senhor, mas é que a São Brás não vou, nem amarrado!
— Vá para o inferno! Iremos nós! Ó se'or Manuel, o senhor não sabe o caminho?
— Verdade, verdade, o homem não deixa de ter sua razão! . No fim de contas que diacho vai fazer o amigo àquela tapera?...
— É boa! Ver o lugar em que nasci..
— Tem razão, mas...
— Se não quiser ir, vou só!
— Mas o senhor sabe que...
— Contam bruxarias do lugar, e há quem acredite nelas... Faço-lhe, porém, a justiça de não supô-lo desses...
Os cavalos ganhavam a Estrada Real.
— Homem, disse Manuel, lá saber o caminho, eu sei, e o guia, se não quisesse vir, poderia esperar-nos ao pé da cruz, mas... confesso-lhe: tenho meu receio dos mocambeiros... além disso... quem, como eu, ouviu as últimas palavras de meu irmão...
— De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!
— O senhor há de rir-se.. São coisas que parecem asneira... Hoje, os moços não acreditam em nada! Mas é que certas palavras, ouvidas da boca de quem vai morrer... mexem com a gente... não acha? fazem um homem ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre nós, e o senhor não se mace, seu pai não teve a vidinha lá muito sossegada, não! Depois que casou, não se dava com pessoa alguma, e nem a própria sogra queria saber dele... vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no comércio e quase que não podia arredar pé do trabalho, contudo, aqui vim três vezes; porém creia que não gostava de cá vir!... Era uma tal tristeza!... Doía-me de ver o José tão desprezado, tão triste, que parecia estar a cumprir uma sentença! Viajante nenhum aceitava o pouso em São Brás; preferiam dormir; ao relento e as cobras! Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horríveis na fazenda, pancadas por espaço de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos morriam sem saber de quê! Enfim, o cônego Diogo, que era o vigário desta freguesia, confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabeça abençoar e proteger São Brás, e quase ia sendo vitima da sua dedicação! até ficou assim a modo de aluado! E, foi tão perseguido por cá, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a paróquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele era o mais íntimo amigo de meu irmão e o único talvez que ultimamente lhe freqüentava a casa; entretanto, compreenda-se lá, seu pai, já por último não o queria ver nem pintado! e, nos delírios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido que queria dar cabo do padre! “Quero matar o padre! Tragam-me o padre! - O padre é que é o culpado de tudo!” Este fulano padre era o cônego! Eu não quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cismático como é, podia agastar-se comigo!...
E, depois de uma pausa
— Ora, já vê o meu amigo que, apesar de não acreditar em almas do outro mundo, tenho as minhas razões para...
Raimundo procurava disfarçar a preocupação em que o punham as palavras de Manuel, e declarou que, se este não estava disposto a ir a São Brás, que se ficasse com o guia, ele iria só.
— Mas saiba, disse, que ao caboclo perdôo o medo, porque enfim não está na altura de certas verdades, mas ao senhor...
— Eu não tenho medo de coisa alguma, já disse!...
— Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!
E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.
— Não, mas é que...
— Ora deixe-se de histórias! O senhor não me parece um homem!...
Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direção da .tapera.
Fizeram em silêncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel por amedrontado.
Instintivamente, pararam em respeitável distância.
— Creio que chegamos! arriscou o moço.
E, avançando alguns passos, disse ao outro:
— Lá está ela!
— Ó de casa! gritou Manuel.
Só o eco respondeu.
Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.
— Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui não há viva alma!...
Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.
Eram os restos de uma casa térrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei resistira ao seu completo abandono.
Ia anoitecer. O sol naufragava, soçobrando num oceano de fogo e sangue; o céu reverberava como a cúpula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.
Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo, cada qual prendeu o seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por uma brecha que cortava de alto a baixo o primeiro pano de parede. Essa parte estava completamente arruinada e cheia de mato; os camaleões, as osgas e as mucuras fugiam espantados pelos pés de Raimundo, que ia galgando moitas de urtiga e capim-bravo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.