Por Franklin Távora (1878)
- Luiz Vidal, tendo ouvido estas ordens do irmão, deu o andar pela sala e voltou ao ponto em que se achava um minuto antes. Faço-vos companhia, Cosme, disse ele.
- Muito folgo de o saber. Eu também vou, disse João da Cunha, encaminhando-se para a porta. Pois não hei de acompanhá-los? Não é o lugar dos cavalheiros o seio quente da família quando a pátria está em perigo. Chegando à porta que dava para a escada, o sargento-mór chamou:
- Ó debaixo? Venha cá um de vocês.
Um negro apareceu logo após.
- Onde está Germano?
- Foi chamar Moçambique e Benedicto.
- E vocês estão todos aí?
- Estamos todos, sim senhor. - Sela o meu cavalo.
Entretanto, d. Damiana chegara-se para onde estavam Cosme, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti e com eles conversava sobre os sucessos vistos e previstos.
- - Ides também percorrer as ruas, Sr. João da Cunha? Perguntou ela ao marido que, dada a ordem, tornara a seu lugar. Meu dever impõe-me este procedimento.
- Não sei se seria mais prudente não vos expordes às iras dos vossos inimigos. Penso, ao contrário, que devo ir ao encontro deles a fim de os castigar. Mas é que em vossa ausência podem vir atacar o sobrado, observou Filipe Cavalcanti.
- Meus escravos estão aí para defendê-lo. Não nos há de faltar nem pólvora nem bala.
- E não há de ser só a escravatura que o defenda. Eu também sei pegar de uma espingarda e dispará-la, disse graciosamente a jovem senhora-de-engenho.
- Bonito, prima! exclamou Cosme Bezerra, sorrindo. Quisera estar de parte a ver a galhardia desta valente amazona.
Não façais pouco em mim, Sr. Cosme, respondeu d. Damiana. Bem me conheceis. Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento que lá existe. Há mais de uma semana não tinha eu no engenho outra ocupação que fazer cartuchame. Podeis pois levar tranqüilo vosso espirito. Na casa de João da Cunha só penetrará mascate depois que Damiana da Cunha tiver exalado o ultimo suspiro.
A gentileza com que a senhora-de-engenho dizia estas palavras não se descreve, nem se imagina sequer. Outros fossem aqueles a quem ela se dirigia nesse momento, que teriam por vã e ridícula bravata essa afirmação a que a autorizava o conhecimento intimo do quanto valia o seu animo. D. Damiana era de feito perita em atirar desde os quatorze para os quinze anos. Manhãs inteiras levava ela por junto das capoeiras próximas do cercado do engenho a passarinhar por distração. Mais de uma aposta ganhou a parentes seus com quem atirara ao alvo. As detonações das armas de fogo, longe de amedrontá-la, levantavam seus espíritos. Sentia nelas certa voluptuaria harmonia que lhe trazia deleite. Naquela forma juvenil, graciosa e fresca havia ânimos viris, que se impunham à vontade e condição feminil como leis fatais e impreteríveis. Enfim, era tradicional esta qualidade da mulher do sargento-mór, e lhe acarretara entre o povo certa alcunha, com que as más línguas supunham injuriá-la. Chamavam-na – a Escopeteira. Longe, porém, de se dar por ofendida, a mulher de João da Cunha não perdia ocasião de mostrar praticamente que esta alcunha lhe era agradável e que a ela tinha indisputável direito.
- Bem sei quanto valeis, senhora prima, tornou Cosme. Mas é que difere muito atirar em rolinhas e sanhassús de atirar em salteadores afeitos a torcer o corpo às balas e aos mais mortais golpes.
- Seja como for, Sr. Cosme. Guardem os negros o baixo da casa, que eu guardarei o alto. Mas receio por meu marido, porque sei quanto o odeiam os mascates e a plebe.
- Nada o há de ofender. Demais, vamos apenas dar uma volta pelas ruas mais agitadas, disse Luiz Vidal.
E estaremos dentro em pouco tempo de volta, acrescentou João da Cunha. Como a esse tempo estavam já prontos os cavalos, desceram a montá-los os cavaleiros presentes. Antes de sair, João da Cunha entrou no armazém.
- Todos estão ai, Roberto? Perguntou ele, Roberto era o feitor. Todos, menos Germano, que ainda não voltou do engenho.
- Tem cuidado, Roberto, enquanto volto.
Senhor sim. Não há de acontecer nada. Nesse momento, de um bando que passava pela frente do sobrado, partiu um grito insultuoso, que veio ferir o senhor-de-engenho no coração:
- Morra o assassino! Morra a escopeteira !
João da Cunha, a modo de gelado de cólera, mal pode ir ter com os amigos que à porta da casa punham os pés nos estribos.
- - Conhecestes aquela voz, Sr. João? Perguntou-lhe, já montado Cosme Bezerra, mal podendo conter a raiva que o assaltara. Há de ser de algum vendido ao dinheiro de Coelho ou de Paes.
- É a voz desse rábula infame que imagina fundar em Goiana uma republica ateniense. - Quem? O Belchior?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.