Por Eça de Queirós (1887)
Topsius gritou-lhe: "Eh, rapsodo!" E quando ele, tenteando as urzes do caminho, se acercou - o douto historiador perguntou-lhe se das doces ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente, murmurou que uma mocidade imperecível sorri nos mais antigos cantos da Helênia. Depois, tendo assentado a sandália sobre uma pedra, tomou a lira entre as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas baixas, pôs à boca uma flauta de cana; e, no resplendor da tarde que envolvia e dourava Sião, o rapsodo soltou um canto já trêmulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a ara de um templo, numa praia da Jônia... E eu percebi que ele cantava os deuses, a sua beleza, a sua atividade heróica. Dizia o délfico, imberbe e cor de ouro, afinando os pensamentos humanos pelo ritmo da sua citara; Atenéia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a beleza às raças, a ordem às cidades; e acima de todos, sem forma e esparso, o Fado, mais forte que todos!
Mas subitamente um grito varou o céu no alto da colina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho emudeceram entre as cordas de metal; com a cabeça descaída, a coroa do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lira helênica, de ora em diante e para longas idades silenciosa e inútil. E ao lado a criança, tirando a flauta dos lábios, erguia para as cruzes negras os olhos claros - onde subia a curiosidade e a paixão de um mundo novo.
Topsius pediu ao velho a sua história. Ele contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesaréia e tocava o honnor junto ao templo de Hércules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heróis; e só havia festas e oferendas para a boa deusa da Síria! Acompanhara depois uns mercadores a Tiberíade; os homens aí não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia às portas dos lagares; e para ganhar o pão duro, tocara a citara grega nos funerais dos bárbaros. Agora errava ali, nessa cidade onde havia um grande templo, e um deus feroz e sem forma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua pátria; sentir o fino murmúrio das águas do Meandro; poder palpar os mármores santos do Templo de Febo Didimeu - onde ele em criança levara num cesto e cantando, os primeiros anéis dos seus cabelos...
As lágrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas. E a minha piedade foi grande por aquele rapsodo das ilhas da Grécia, perdido também na dura cidade dos judeus, envolto pela influência sinistra de um deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Ele desceu a colina, apoiado ao ombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas nuas, e muda e mal segura do cinto a lira heróica de cinco cordas.
No entanto, em torno às cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fomos encontrar a gente do templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo de ouro para o lado do Mar de Tiro, intimando o centurião a que baixasse os condenados da cruz, antes de soar a hora santa da Páscoa! Os mais devotos reclamavam que se aplicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifrágio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indiferença do centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria ele macular o Sabá, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.
- O sol declina! O sol vai deixar o Hébron! - gritou de cima de uma pedra um levita, aterrado.
- Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos lânguidos, movendo os braços cheios de manilhas de ouro:
- Atirai o Rabi aos corvos! Dai às aves de rapina a sua páscoa!
O centurião, que espreitava o alto da Torre Mariana, onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro - acenou devagar com a espada. Dous legionários, lançando pesadamente ao ombro as barras de ferro, marcharam com ele para as cruzes. Eu, arrepiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus, o centurião parou, erguendo a mão...
O corpo branco e forte do Rabi tinha a serenidade de um adormecimento; os pés empoeirados, que há pouco a dor torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão, como se o fossem em breve pisar; e a face não se via, tombada para trás molemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céu onde ele pusera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei também o céu; rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...
- Quem reclamou o corpo deste homem? - gritou, procurando para os lados, o centurião.
- Eu, que o amei em vida! - acudiu José de Ramata, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto dele, depôs logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre, onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.