Por Eça de Queirós (1878)
Luísa, ao voltar para casa, veio a refletir naquela cena. Não - pensava -, já não era a primeira vez que ele mostrava um desprendimento muito seco por ela, pela sua reputação, pela sua saúde! Queria-a ali todos os dias, egoistamente. Que as más línguas falassem; que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para quê?... Porque enfim, saltava aos olhos, ele amava-a menos... As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não tinha aqueles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda numa carícia palpitante, nem aquela abundância de sensação que o fazia cair de joelhos com as mãos trêmulas como as de um velho!... Já se não arremessava para ela, mal ela aparecia à porta, como sobre uma presa estremecida!... Já não havia aquelas conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois da hora ardente e física, quando ela ficava numa lassitude doce, com o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nus! - Agora! Trocado o último beijo, acendia o charuto, como num restaurante ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatório dar uma penteadela no cabelo com um pentezinho de algibeira. (O que ela odiava o pentezinho!) As vezes até olhava o relógio!... E enquanto ela se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudá-la, pôr-lhe o colarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta dela, despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus ombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros - ou sentado, com um ar macambúzio, bamboleava a perna!
E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a por cima do ombro, como uma burguesinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabeça alta, falando no "espírito de madame de tal", nas "toaletes da condessa de tal"! Como se ela fosse estúpida, e os seus vestidos fossem trapos! Ah, era secante! E parecia, Deus me perdoe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Imediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ela era decerto a mais linda, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!... E já pensava um pouco que sacrificara a sua tranqüilidade tão feliz a um amor bem incerto!
Enfim, um dia que o viu mais distraído, mais frio, explicou-se abertamente com ele. Direita, sentada no canapé de palhinha, falou com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: Que percebia bem que ele se aborrecia; que o seu grande amor tinha passado; que era portanto humilhante para ela verem-se nessas condições, e que julgava mais digno acabarem...
Basílio olhava-a, surpreendido da sua solenidade; sentia um estudo, uma afetação naquelas frases; disse muito tranqüilamente, sorrindo:
- Trazias isso decorado!
Luísa ergueu-se bruscamente; encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos lábios.
- Tu estás doida, Luísa?
- Estou farta. Faço todos os sacrifícios por ti; venho aqui todos os dias; comprometo-me, e paraquê? Para te ver muito indiferente, muito secado...
- Mas meu amor...
Ela teve um sorriso de escárnio.
- Meu amor! Oh! São ridículos esses fingimentos!
Basílio impacientou-se.
- Já isso cá me faltava, essa cena! - exclamou impetuosamente. E cruzando os braços diantedela: - Mas que queres tu? Queres que te ame como no teatro, em São Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos de tenor, aqui del rei que é frio, que se aborrece, é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?
- São tolices que tu fazias...
- Ao principio! - respondeu ele brutalmente. - Já nos conhecemos muito para isso, minha rica.
E havia apenas cinco semanas!
- Adeus! - disse Luísa.
- Bem. Vais zangada?
Ela respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas:
- Não.
Basílio pôs-se diante da porta, e estendendo os braços:
- Mas sê razoável, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o dueto do Fausto. Eu amote; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrifícios necessários; encontramo-nos, somos felizes... Que diabo queres tu mais? Por que te queixas?
Ela respondeu com um sorriso irônico e triste:
- Não me queixo. Tens razão.
- Mas não vás zangada, então.
- Não...
- Palavrinha?
- Sim...
Basílio tomou-lhe as mãos.
- Dê então um beijinho em Bibi...
Luísa beijou-o de leve na face.
- Na boquinha, na boquinha! - E ameaçando-a com o dedo, fitando-a muito: - Ah, geniozinho! Tens bem o sangue do Sr. Antônio de Brito, nosso extremoso tio, que arrepelava as criadas pelos cabelos! - E sacudindo-lhe o queixo: - E vens amanhã?
Luísa hesitou um momento:
- Venho.
Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio dizer-lhe logo muito quizilada: que a Joana tinha saído às quatro horas; não tinha voltado; o jantar estava por acabar...
- Onde foi?
Juliana encolheu os ombros com um sorrisinho.
Luísa percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto de piedade desdenhosa.
- Há de lucrar muito com isso. Boa tola! - disse.
Juliana olhou-a espantada.
- "Está bêbeda! - pensou.
- Bem, que se lhe há de fazer? - exclamou Luísa. - Esperarei...
E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:
- Que egoísta, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que uma mulher se perde! É estúpido!
Como ele suplicava, se fazia pequenino, humilde ao princípio! O que são os amores dos homens! Como têm a fadiga fácil!
E imediatamente lhe veio a idéia de Jorge! Esse não! Vivia com ela havia três anos - e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. Mas o outro! Que indigno! Já a conhecia há muito! Ah! Estava bem certa agora, nunca a amara, ele! Quisera-a por vaidade, por capricho, por distração, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas amor? Qual!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.