Por Eça de Queirós (1870)
Carlos Fradique começou a tocar uma balada das margens do mar do Norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das águas, o feérico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um pirata norvégio, a fria Lua. Eu tinha ido com Rytmelpara junto da varanda, e enquanto a pe quena melodi a soava nas cordas do violoncelo, lembravam-me as antigas coisas do meu amor, o Ceilão, as noites silenciosas em que ele me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar parecia uma afirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos da Lua, as moitas de rosas de Clarence-Hotel, os prados suaves de Ville d'Avray; via-o ferido, pálido sobre as suas almofadas; via-o abordo do Romantiç comandando as manobras da fuga, choran do os desastres do amor... E estasmemórias embalavam-se no meu cérebro, confundidas com as melodias do violoncelo.
VI
Ao outro dia eu devia encontrar-me com ele nessa fatal casa n-o... Fui, como sempre,toda vestida de preto, envolta num gran de véu. Estava extremamente pálida, palpitava-me o coração de susto. Era aquele um momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel umaexplicação clara, definitiva, sem equívocos... Uma pala vra que ele dissesse, seca ou indiferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-ia como abandonada, exilada da vida,retirava-me para um chalé na Suíça, ou para Jerusalém, ou para a melan colia de um claustro no Sul da França. Tinha determinado assim a solução do meu destino.
Quando cheguei à casa n-o... ele não estava ainda. Fiquei ali muito tempo, imóvel numacadeira. Os ruídos da rua chegavam-me como no fundo de um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, através dos vidros foscos como os globos dos candeeiros. Eu sentia aquela impressão indefinida, que nos vem quando estamos duran te muito tempo num lugarsossegado e triste, olhando o silencioso cair da chuva.
De repente a porta gemeu docemente, ele entrou.Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flores miadas das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-mas cair no regaço...
Depois, falando-me baixo, junto da face:- Andei todo o dia a pensar em si, à travers champs. Não respondi, e com os olhos errantes nas cores do tapete, desfolhei cruelmente aspequeninas flores dos prados. Tinha um contentamento amargo em torturar aqueles delicados seres, que vinham dele, e que me parecia terem dele aprendido a mentir.
— Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador — repetiu com uma vozdocemente insistente.
Eu ergui os olhos para ele.- Responda-me: sabe mentir? — Mas, meu Deus — disse ele, afastando-se -, parece que me quer hoje mal, minha querida filha!Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flores mu tiladas.
Ele então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus olhosimpassíveis, ficou esperando, numa contemplação amante e paciente, que eu quebrasse aquela imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para ele, numa atracção insensível, mas dominava-me. Até que por fim ele ergueu-se len tamente, arremessou o corpo para um sofá,e ali ficou, como refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa...
Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos:- Sabe o que é? Não o compreendo, e é necessário que me di ga, mas francamente, claramente, sílaba por sílaba, o que tem! Não me ama, é claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me escreveu de Londres. E agora vejo-o pe lo seu olhar, as suas menores palavras, o seu silêncio, até. Há uma coisa qualquer, não sei qual, mas há. A verdade é que me abando na, que me não ama. É necessário que se exp lique. Isto não pode ser assim. Sofro. Se soubesse! Chorei toda a noite...E recomecei a chorar diante dele, com soluços que me quebra vam. Ele tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as coisas mais tocantes, em que havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Afastei-o de mim, e comprimindo o pranto:- Não, não, é necessário que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sa bes o que me deves responder... Diz-me averdade...
Ele, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez: — Mas, minha querida amiga, a verdade é que as ilusões do seu espírito são a nossadesgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalida de do carácter feminino. É-lhes insuportável a serenidade. Na vida pacífica procuram o romance, no romance procuram a dor. É necessárioque esses pequeninos e graciosos crânios tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer então que lhe di ga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão? Que mais quer? Acha-me reservado, diz.E se eu tivesse as violências de Otelo, achava-me decerto ridículo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lho aqui, sentado num sofá, de sobrecasaca, numa casa que tem número para arua, e vou aqui apouco, num coupé, jantar, jogar tal vez o xadrez, vestir — quem sabe? — um robe de chambre! É lamentável tudo isto, bem sei. E é por isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse aqui nos paroxismos de Antony, ou tivesseuma toilette veneziana, ou se isto fosse uma abadia feudal, ou se eu partisse daqui paraconquistar Jerusalém, diga-me — tinha mais confiança?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.