Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, que se erguera do sofá., chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa -–inteiriçado e vermelho.

À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, pôr costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarrão, foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois de tanto tempo e em minha própria casa:

-Deliciosa, esta sopa!

Jacinto ecoou:

-Divina!!

Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, carregado de cerimônia, mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... e eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, e gritei:

-Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, privado dos pitéus lusitanos...

E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado na ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a história, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz continha foie-gras, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, pôr cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessara ninguém. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: - Extraordinário, hem?

D. Teotônio observou, misteriosamente, que o “cozinheiro sabia para quem cozinhava”. E a bela mulher do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:

-Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!

Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir conversação, ataquei com desabrida alegria a Srª D. Luísa, pôr ela assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê! ali na Serra era impossível, ainda a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com aquele seu modo, tão suave que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o Sr.D. Jacinto possuía uma larga faixa do rio douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotônio, não valiam dois mil-réis. Se já não há sáveis!... E a propósito das antigas pescas do Douro se iam formando, em torno da mesa, entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras aproveitavam para cochilar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até aos frangos guisados. Receoso de que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar) a interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado no ascensor.

-Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em Paris! O Jacinto, pôr causa dum peixe muito raro, lhe mandara o que... O Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7172737475...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →