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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

A parta da rua abriu-se e ela viu aparecer a filha agasalhada em uma capa que lhe chegava aos pés, com um grande chapéu de plumas negras. Encostou-se ao umbral da porta da corredor, chorando, abalada, sem forças para seguir. Violante precipitou-se e, abraçando-a apertadamente, pôs-se a acariciá-la com palavras meigas, levando-a devagarinho para a sofá. Quando se sentaram ela ficou sucumbida, em atitude humilde, sem coragem de levantar as olhos para a filha que a amparava.

— Então, mamãe? Não quer olhar para mim?

Ela encarou-a, então, com as lágrimas correndo em fios e sorriu tristemente, contemplando-a com toda a ternura da sua imensa saudade. Achou-a linda, mais forte.

— Sou eu, Violante.

— Ah! sim... Violante... Olha para mim, vê como estou magra, cheia de cabelos brancos.

O pranto tomou-lhe, de novo, a voz.

— Tu não tens pena de mim?...

— Ora, mamãe, — interveio Paulo, — assim Violante fica com medo de voltar.

— Por quê? Que mal lhe estou eu fazendo?

— Vamos conversar.

— Foi uma maluquice, mamãe, — disse Violante, — mas não falemos nisso. — E não estás arrependida?

Ela meneou com a cabeça negativamente, sorrindo e, estouvada, tomando as mãos da velha, pôs-se a afagá-las às palmadinhas:

— Vamos falar de coisas alegres. Eu não vim aqui recordar tristezas. O que passou, passou. A senhora como vai? Tem tido saudades de mim? diga...

— Como vou...! esperando a morte. Não queres tirar a capa?

— Não, não posso demorar-me. — Onde vais?

Ela sorriu, titubeou:

— Tenho visitas, amigas. Descanse; muito breve venha passar um dia inteiro com a senhora.

— Se eu ainda for viva.

— Ora, mamãe.

— Ora, hem? Não vês como estou inchada? Olha bem para mim.

— Não acho. A senhora não deixa as cismas.

— Cismas... Antes fossem. Mas que foi que te deu na cabeça, minha filha?

Deu d'ombros, fez um momo e dando à voz um tom infantil:

— Vamos falar de outra coisa. Assim eu fico triste... — E logo, fugindo ao assunto: E Felícia? É verdade que está maluca?

— Perdida duma vez. Não diz coisa com coisa, sempre resmungando, praguejando. Daqui para a Hospício. Ainda hoje, não imaginas o que fez.

— Por quê?

— Por causa do filho. Os filhos... vocês! acentuou.

— Eu não sabia que ela tinha filho.

— Tinha, era marinheiro; morreu na revolta.

— Coitada!

— E tu? como vives?

— Vivendo: ora alegre, ora triste. Mas nada me falta, graças a Deus. — E não ficas vexada?

Ela tornou-se séria, sacudindo as borlas da capa:

— Vexada, por quê? É uma vida como as outras. Vai, talvez, mais ligeira, mas é mais agradável. Tristezas, todos as têm. Eu podia ter casado, não quis.

— Por quê?

— Porque sim. — impôs a mão ao peito e afirmou: — Não tenho coração. — Isso sei eu.

Paulo, que se conservara calado, fumando, interveio.

— Se ela é feliz, que mais?

— Pois sim, mas eu penso em Deus.

— Deus... Bem se importa ele comigo.

Levantou-se.

Começava a sentir a melancolia daquele lar taciturno; aquele ambiente de tranqüilidade pesava-lhe, não era a seu elemento, sentia-se como sufocada. Fez menção de despedir-se, mas a mãe convidou-a a ver a casa. Cedeu submissa e seguiu-a olhando indiferente, sem curiosidade, com um sorriso artificial no rosto. Diante da quarto que lhe fora destinado houve maior demora: a velha levantou a vela, uma luz mais larga projetou-se.

— Este era o teu.

— Bem bom. A casa é pequena, mas muito cômoda. Muito melhor que a outra. E Felícia?

A negra preocupava-a. Queria ver a desgraça, sentir a miséria, contemplar a agonia.

— Deve estar na cozinha.

Paulo deu luz ao gás e avançou chamando a rapariga, aos berros. Não houve resposta.

— Ela, ás vezes, sai para a quintal, fica lá fora sentada, resmungando.

Paulo procurava. Uma senhora ergueu-se junto ao fogão e ficou imóvel. Violante adiantou-se e a negra esperou-a hostil.

— Ó Felícia! Como vai você? Então que é isso? Não me conhece mais?

A negra olhou-a muito, sem pestanejar; de repente, com uma rabanada, saiu da cozinha e sumiu-se no quintal, aos resmungos.

— Coitada! — lamentou Dona Júlia; — é melhor deixá-la.

Na sala de jantar Paulo insistiu com a irmã para que aceitasse alguma coisa; ela recusou: "Jantara tarde. Não tinha vontade." A velha procurava pretextos para ficar a sós com ela, Paulo, porém, rondava-as fazendo as honras da casa, muito solícito e franco. A mãe atreveu-se a pedir, carinhosa:

— Deixa-me ficar um instantinho com Violante, meu filha. — Pois não.

Retirou-se contrariado. Foi para a sala. As duas olharam-se, caladas. Dona Júlia tomou uma das mãos da filha, a tremer; pôs-se a beijá-la, sôfrega. Súbito, como se lhe faltasse a equilíbrio, oscilou e teria caído se Violante não a amparasse. Cerraram-se-lhe os olhos, todo o corpo amoleceu, inerte, tombando sobre uma cadeira. Violante gritou; Paulo acudiu a correr:

(continua...)

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