Por Adolfo Caminha (1893)
E ele punha-se a cantarolar, com os ouvidos arrolhados, o olhar no teto, estendido na rede, mudo, impotente como um eunuco.
Uma noite, pela madrugada, despertou com o desejo veemente de ir ter com D. Terezinha, na alcova. Há meses não se chegava a mulher alguma, cheio de aborrecimento pelo outro sexo, frio, mole, inacessível quase às carícias da fêmea. Agora, porém, renascia-lhe a virilidade, sentia uma forte vontade indomável e impetuosa, de amar fisicamente, de crucificar-se nos braços de uma mulher que não fosse de todo mundo e confundir o seu sangue com o dela num demorado e indescritível espasmo. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um condutor elétrico, uma formidável ereção a distender-lhe os nervos, escabujando na rede em espreguiçamentos lúbricos, vergando, como um vencido, ao poder irresistível da animalidade humana. O sangue pulava-lhe nas artérias numa hipernésia que lhe atordoava os sentidos, que lhe tirava a respiração, impelindo-o para a mulher.
Pensou na Mariana, que dormia ali perto, mas a Mariana era uma criada que não se lavava, um estafermo sem sexo, incapaz de satisfazer os apetites de um homem. Não havia jeito senão tentar a Teté. E lá se foi, sutilmente, pé ante pé, corredor afora, direito à alcova da infeliz senhora.
A alcova tinha uma porta para o corredor. João olhou pelo buraco da fechadura, mas não pôde ver senão o espelho do velho toucador, defronte, inclinado para a frente, refletindo um vaso noturno, e roupas espalhadas no chão.
Bateu de leve, e, receoso da criada, deu volta pela sala da frente, tateando no escuro, sem ruído. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta: empurrou de leve enfiando a cabeça para dentro.
— Teté! chamou numa voz quase imperceptível.
Silêncio profundo. Os cortinados da cama estavam cerrados. João foi entrando devagar, equilibrando-se no bico dos pés.
— Teté! repetiu à meia voz.
Ninguém respondeu. Adiantou-se e escancarou as cortinas, mas — oh! — o leito matrimonial, largo e fresco, branquejava desolado, sem sombra de mulher.
João ficou boquiaberto, muito admirado. “— Que significava aquilo?” Os lençóis revoltos acusavam o desespero de uma pessoa que não teve tempo a perder. Ante a clarividência assombrosa da realidade, o amanuense rodou sobre os calcanhares, e, resignado como um boi, sem proferir palavra, murcho, sentiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda há pouco o espicaçava como uma urtiga. Retirou-se macambúzio a pensar nos caprichos da sorte.
CAPÍTULO XV
Quando mestre Cosme, uma manhã, foi avisar a João da Mata, que “a menina estava com as dores”, o amanuense dormia ainda sob os lençóis e nem sequer sonhava na afilhada.
Ergueu-se da rede, com um pulo, enfiou as calças, lavou-se num instante, e abalou mais o velho para a Aldeota, sem dizer palavra a D. Terezinha.
— “Já tinham arranjado parteira?” inquiriu acelerando o passo.
— Já, inhôr sim, a comadre Joana Pataca, uma do Outeiro. — Boa?
Mestre Cosme não afirmava porque não a conhecia bem, mas era limpa e não tinha má cara. Diz que era a melhor parteira do Outeiro. Agora, se seu Joãozinho não quisesse... A mulher já estava cuidando da menina...
— Quando apareceram as dores? — Se Maria gemia muito...
O velho informou tudo minuciosamente sem ocultar um só detalhe, juntando às palavras os seus gestos rudes de homem do campo.
A rapariga há dois dias queixava-se de umas dores nas “ancas e no pé da barriga”, acompanhadas de fraqueza nas pernas e grande falta de ar... Se gemia? Muito, coitada, metia até pena. Pudera! novinha ainda... A parteira dissera logo que a criança estava no nascedouro. Àquela noite as dores tinham piorado, ninguém dormira, velando a pobre moça. Eram chás e fricções, e — corre daqui e chega depressa — todos com cuidado, rezando à N. S. do Bom Parto.
Logo da porteira do sítio João escutou os gemidos de Maria do Carmo, trêmulos, sentidos, longos... e aquilo apertou-lhe o coração.
No pequeno quarto de taipa, com uma janelinha para o descampado, achavase tia Joaquina, à cabeceira da normalista, alisando-lhe os cabelos, com carinho, e uma outra mulher gorda, pançuda, sem casaco, muito trigueira, com marcas de bexiga no rosto, meio idosa.
— Dão licença? murmurou João da Mata descobrindo-se com respeito.
A mulher gorda tomou o casaco, às pressas, e Maria volveu os olhos úmidos e profundamente melancólicos para o padrinho, gemendo.
Mestre Cosme trouxe um tamborete.
Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostado à parede fumegava o braseiro:
— Então, como vai? perguntou João tomando a mão da afilhada. Muitas dores, hein?
— Assim... respondeu a rapariga mordendo o beiço com um gesto doloroso, revirando-se na rede, e continuou a gemer alto.
— A senhora é que é a parteira? tornou João para a mulher gorda que se conservara imóvel com o queixo na mão.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.