Por Aluísio Azevedo (1881)
Não fechara a porta, de propósito; estava alerta, ao primeiro n mor saltaria. Contudo cerrou as pálpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; já era quase madrugada. Ia adormecer.
Mas, um leve e surdo ruído despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e insensivelmente se lembrou do revólver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra a claridade exterior, a mais esquálida, andrajosa e esquelética figura de mulher, que é possível imaginar. Era uma preta alta, cadavérica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.
O rapaz, apesar da sua presença de espírito, teve um forte sobressalto de nervos; todavia, não se mexeu, na esperança de ouvir ainda alguma revelação; o espectro porém, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e tomou a sair silenciosamente.
Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrás dele que fugiu na sua frente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo e o terceiro.
O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com dificuldade e, ao chegar lá embaixo, avistou-o já no pátio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si não conhecer o terreno; foi às apalpadelas e aos encontrões que conseguira atravessar a parte inferior da casa. Lá fora havia já perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em tomo de si, caminhou à toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se rápido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua, divisou em distancia o vulto sinistro, que se afastava, prestes a sumir-se nas meias-tintas da noite. Então abriu contra ele numa vertiginosa carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.
Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos erguia-se já a escravatura para o trabalho das roças. As poucas horas em que Raimundo encostou a cabeça. para descansar um bocado, foram cheias de sonho.
Ao levantar-se pelas sete da manhã, aborrecido e quase em dúvida se sonhara toda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia, ao almoço. conversou-se alegremente sobre o fato, e o Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava bêbada. E contou que, nas noites de—tambor elas costumavam dormir; por ali, no primeiro rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre uma súcia dessas pestes; apareciam e desapareciam, sem ninguém lhes perguntar donde vinham, nem para onde iam.
— São escravas fugidas? indagou Raimundo.
O Cancela respondeu que não. Os mocambeiros formavam grupo a parte; nunca apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e só se mostravam na estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros, forros em geral com a morte de seus senhores, e que habituados desde pequenos ao cativeiro não tendo já quem os obrigasse a trabalhar e não querendo sair do sertão, ficavam por ai ao Deus dará, pedinchando pelas fazendas um bocado de arroz para matar a tome, e um pedaço de chão coberto para dormir; Simples vagabundos, que não faziam mal a ninguém.
— Olhe, continuou ele, de São Brás tínhamos aqui a principio três que andavam p'r'aí sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro não sei se ainda existe, é uma preta idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta noite.
E, como Raimundo pedisse mais informações, acrescentou que ela as vezes passava meses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e vê-la dançar. Doida varrida! estava sempre resmungando ia consigo; mas que, de tempos aquela parte, não aparecia, era bem possível que o pobre-diabo tivesse Já esticado a canela ai pelo mato.
Falou-se também da mãe-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de estrangeiros que se perderam nas matas, seguindo o canto original daquele pássaro. Depois trataram de interesses; e fechou-se o negocio da fazenda Raimundo estava por tudo, contanto que lhe não demorassem a partida — ardia de impaciência por visitar São Brás.
Não obstante, o Cancela instava com os dois hóspedes para que se demorassem uma semana, ou, pelo menos, alguns dias Manual disparatou: Que loucura! Pois ele podia lá passar dias longe do seu armazém?:..
Então que partissem pela manhã seguinte.
Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agüentar sol pelo caminho, quando tinham um luar que nem dia?...
O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6 às três horas da tarde conseguiram levantar acampamento.
— Leve-nos a São Brás, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do portão da fazenda.
— A São Brás? Deus me livre.
E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a São Brás.
— Ora essa! Não é de sua conta! Leve-nos!
— A São Brás não vou!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.