Por Franklin Távora (1878)
Estavam presentes os principais nobres do lugar, que para esse ponto se haviam encaminhado às primeiras manifestações da desordem, como para a casa de Coelho haviam corrido os principais negociantes. E cumpre notar antes de tudo que Coelho interiormente estava satisfeito com as circunstancias que pareciam colocá-lo no mesmo plano do senhor-de-engenho e fronteiro a ele. ‘Se ele é sargento-mór, também eu o sou – dizia o negociante em sua mente escaldada pelo ódio e pelo despeito. Se o cercam seus amigos, a mim também me cercam os meus no momento difícil. Se projeta aniquilar-me, eu de há muito jurei reduzi-lo a cinzas. O futuro há de decidir qual dos dois ficará com a vitoria de seu lado.’ Por onde se vê que o alvo em que o português tinha as vistas era singular, único – João da Cunha. Já não eram os mesmos os intuitos deste – abrangiam o mais vasto teatro. Esquecido inteiramente da origem principal do ódio com que o distinguia o mercador, ele explicava a oposição dos mascates atribuindo-lhes ambições de mando e fortuna. Nunca lhe passou pela imaginação que pudesse o amor contrariado dar inspiração e impulso àquele movimento.
A seus olhos Coelho era mais um instrumento dos mascates do Recife, instrumento cego e habilmente manejado por eles, do que uma mola importante, uma força de seu natural independente e vivaz do estranho artefato que perturbava a sociedade goianista. A verdade entretanto era justamente o contrario do que julgava o fidalgo. A ação de Coelho no movimento hostil à nobreza partia de se mesmo. A não ser esse amor contrariado, o moço português estaria ao lado dos nobres, como estiveram durante a guerra vários portugueses, por exemplo Martinho de Bulhões, genro de Matias Vidal.
Em verdade, seus sentimentos casavam-se mais com os daqueles contra os quais movia seus recursos, do que com os sentimentos daqueles com quem aparecia identificado tanto para a ofensa como para a defesa. A nobreza semelhava ainda então uma arvore de extensas raízes que penetrava profundamente no solo das sociedades, e cuja folhagem tinha a majestade das grandes alturas e das vastas sombras; a democracia era planta rasteira, sem raízes, sem ramas; era vegetação de vida duvidosa, incipiente; prometia, mas não assegurava assumir as proporções gigantes, com que um século depois sombreou o solo da pátria e abrigou as instituições a que este império deve a sua grandeza e o seu renome. Mas Coelho não tinha melhor motivo. O senhor-de-engenho julgava indigno e ingrato aquele que aliás fora atirado na luta pelo amor imenso e pelo despeito feroz.
Em casa de João da Cunha estavam sobressaltados não sem razão os espíritos. As noticias aterradoras que de momento a momento chegavam; os gritos dos magotes de povo que passavam, vociferando pela frente do sobrado ao principio desordenadamente, logo após organizados para o acometimento e a pilhagem; o rebate dado pelos sinos e pelos tambores; as famílias que fugiam amedrontadas e como sem saberem caminho nem carreira; os soldados que corriam, acudindo aos toques dos clarins; enfim, todo o medonho cortejo de circunstancias que se prende ao furor e à anarquia das turbas, e que são como o colear, o sibilar, o bote, a dentada e a peçonha de enorme reptil, solto, mas assanhado em espaço estreito, não podiam gerar no animo de quem se via, como os que ali se achavam, ameaçados de ser o alvo único da ferocidade da insurreição, impressões diferentes dessas.
João da Cunha e Cosme Bezerra, compreendendo a gravidade do momento, trataram logo de assentar nos meios de conjurar o cataclismo, que ameaçava engolir fortunas e vidas preciosas.
- O melhor meio – disse Cosme – é reunir as ordenanças e mandar varrer as ruas a panos de espada e a tiros de arcabuz.
- Não, não – disse Filipe Cavalcanti. Nem todos os que enchem as ruas são desordeiros. Procedendo assim, a força publica arrisca-se a ferir famílias inofensivas que fogem da anarquia, e até muitos que são por nós.
- Entendeis então que de outro modo tereis restabelecido o sossego publico? Enganai-vos. Em momentos semelhantes ao presente, quem se deixa guiar pelo coração corre o perigo de morrer às unhas inimigas. O raciocínio, a justiça, o sentimento de humanidade devem estar na ponta da espada, na boca do clavinote, nas patas dos cavalos. Que dizeis, Luiz? perguntou Cosme voltando-se para seu irmão Luiz Vidal, que, de pé, olhava, com mostras de quem tinha o espirito ocupado em acertar com o verdadeiro caminho, ora para o capitão de ordenanças, ora para o sargento-mór. - - Em verdade não vejo outro meio de combater a insurreição, respondeu Luiz Vidal. Entendo, porém, que não há necessidade de levar-se a repressão ao extremo que vós indicais. A força publica deve apresentar-se imediatamente nos pontos em que a perturbação se mostrar mais veemente e ameaçadora; mas deve haver particular empenho em que sua presença sirva antes para serenar os espíritos do que exaltá-los ainda mais, e muito menos para proceder a excessos que possam trazer o sangue e a morte.
- - Com quem estou metido! exclamou Cosme. Que dois filósofos humanitários! Observasse eu estes preceitos de refinada brandura, que amanhã Goiana em peso estaria nas garras de Antonio Coelho e de Jeronimo Paes, e cada um de nós teria o seu gasnete entre as unhas do Lauriano, do Bartolomeu ou de outros vis instrumentos do ódio português. Basta, meus amigos; dispenso os vossos conselhos. Olá, Matias? Gritou ele a um soldado, que da porta da sala assistia, sem tugir nem mugir, como era seu dever, à conversação dos nobres senhores. Corre já à casa, e dize ao alferes Maciel que espere por mim com toda a força que lá tem sob suas ordens. Põe nova carga nas minhas pistolas e mete-as nos meus coldres.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.