Por Eça de Queirós (1878)
Vinha vermelho; trazia as bandas do casaco de alpaca todas deitadas para trás, e agitava com excitação um rolo grosso de papéis.
Luísa ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma amiga. - Oh! Ele não conhecia; tinha chegado do Porto...
- Ah, bem! Bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o Jorge? - Desculpou-se logode a não ter ido ver; mas é que não tinha uma migalha livre! De manhã a alfândega; à noite os ensaios...
- Então sempre vai? - perguntou Luísa.
- Vai.
E entusiasmado:
- E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão! - Agora vinha ele de casa do atorPinto, que fazia o papel de amante, de Conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finais do terceiro ato: "Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem arcarei braço a braço com a sorte! À luta!" Era uma maravilha! Vinha também de lhe dar parte que alterara o monólogo do segundo ato. O empresário achava-o longo...
- Então continua a implicar, o empresário?
Ernestinho fez uma visagem de hesitação.
- Implica um bocado... - E com um rosto radioso: - Mas está delirante! Estão todos delirantes! Ontem me dizia ele: "Lesminha"... E o nome que me dão por pândega. Tem graça, não é verdade? Dizia-me ele "Lesminha, na primeira representação cai aí Lisboa em peso! Você enterra-os a todos!" É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o folhetinista da Verdade. Não conhece?
Luísa não se lembrava bem.
- O Bastos, o da Verdade! - insistia ele.
E vendo que Luísa parecia alheia ao nome, ao indivíduo:
- Ora não conhece outra coisa! - Ia descrever-lhe as feições, citar-lhe as obras...
Mas Luísa, impaciente, para findar:
- Ah, sim! Lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!
- Pois é verdade, vou à casa dele. - Tomou um tom compenetrado: - Somos muito amigos, émuito bom rapaz; e tem um pequerrucho lindo!... - E apertando-lhe muito a mão: - Adeusinho, prima Luísa, que não posso perder um momento. Quer que a vá acompanhar?
- Não, é aqui perto.
- Adeus, recados ao Jorge!
- Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atrás dela.
- Ah! Esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?
Luísa abriu muito os olhos.
- À condessa, à heroína! - exclamou Emestinho.
- Ah!
- Sim, o marido perdoa-lhe, obtém uma embaixada, e vão viver no estrangeiro. É mais natural...
- Decerto! - disse vagamente Luísa.
- E a peça acaba, dizendo o amante, o Conde de Monte Redondo: "E eu irei para a solidãomorrer desta paixão funesta!" É de muito efeito! - Esteve um
momento a olhá-la, e bruscamente: - Adeus, prima Luísa, recadinhos ao Jorge!
E abalou.
Luísa entrou no Paraíso muito contrariada. Contou o encontro a Basílio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde falar naquilo, citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...
E tirando o véu, o chapéu:
- Não; realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não vir tanto. Pode-se saber...
Basílio encolheu os ombros, contrariado:
- Se queres não venhas.
Luísa olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:
- Obrigada!
Ia a pôr o chapéu, mas ele veio prender-lhe as mãos; abraçou-a, murmurando:
- Pois tu falas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por tua causa...
- Não, realmente dizes às vezes coisas... tens certos modos...
Basílio abafou-lhe as palavras com beijos.
- Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdoa. Estás tão linda...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.