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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

E eu qúinda te amo, ó pálida canalha Que sou gentil e bom, Far-te-ei enterrar numa mortalha Talhada à Benoiton! Irei à noite com Marie Larife, Vénus do macadam,Fazer sentir ao pó do teu esquife Os gostos do cancan... E no tempo das courses, p'lo Verão — Assim to juro eu — Irei dar parte à tua podridãoSe o Gladiador venceu...

Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassível, quase lânguida, contava assituações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga. A sua veia, naque le dia, era toda grotesca.- A pobre criatura — dizia ele — untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, apro ximei-me dela, arregacei a manga e apresenteilhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, le vou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufo quei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço...

— Oh! Sr. Fradique! — gritaram todos, escandalizados com a invenção monstruosa.- Comeu mais — continuou ele gravemente -, gostou e pediu outra vez.

Falava com um sorriso fino, quase beatifico. Nós íamos revol tar-nos contra a cruel excentricidade daquela história.Neste momento vi à porta da sala, trémula, com um grande espanto nos olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ela tomou-me pela mão, foi-me levando, eno corredor, olhando com receio, abrindo num grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido:

— É ele! Encostei-me desfalecidamente à parede, sentindo parar o coração.Betty, com passos discretos, foi abrir a porta do meu toilette. Entrei. De pé junto de uma mesa, extremamente pálido, estava ele. Apertei as mãos sobre o peito, fiquei imóvel,suspensa. Ele ca minhou para mim com os braços abertos, para me envolver; eu dei xei-me cair aos seus pés e, calada, beijei-lhe os dedos. Ele tinha ajoelhado comigo, e com as mãos enlaçadas, os olhos confundidos, chorávamos ambos. Eu só dizia num murmúrio delágrimas:

— Há tanto tempo!..- Minha senhora, minha querida menina — dizia Betty da porta -, e aquela gente, santo Deus, que há-de dizer!?

Eu não a escutava. Foi ele que disse sorrindo:- Tem razão, Betty, tem razão! É necessário voltar à sala.

E deu-me o braço. Entrámos: ele grave, eu meio desfalecida, abs tracta, com os olhos marejados de lágrimas e um sorriso vago nas feições.Disse o nome de Captain Rytmel, e a sua antiga amizade com o conde. Vi a marquesa sorrir levemente.E voltando-me para Rytmel:

— O sr. Carlos Fradique — disse eu -, antigo pirata. Os dois homens apertaram a mão.- A senhora condessa lisonjeia-me extremamente. Eu fui ape nas corsário — disse

Carlos.Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A luz envolviao. Estava mais pálido, o seu rosto apresentava linhas mais graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e funda que a dominava.Fradique continuava falando. Agora fazia a critica das mulhe res do Norte.

— A irlandesa — dizia ele — tem, mais que nenhuma mulher, a graça... Sobretudo a quevive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a melhor ciência para um espírito feminino — é um lago. Aquela água imóvel, azul, pálida, fria, pacífica, dá um ex tremo repouso à alma, uma necessidade de coisas justas, um há bito de recolhimento e depensamento, um amor da modéstia e das coisas íntimas, o segredo de ser infinito sendo monótono, e a ciência de perdoar... Exijo, na mulher com quem casar, que tenha as unhasrosadas e polidas, e um ano de convivência com um lago!

Eu vi Rytmel corar de leve e torcer nervosamente o bigode. Pelo lúcido instinto da paixão, compreendi que entre aquela glorificação dos lagos, eos ocultos pensamentos de Rytmel, havia uma afinidade. Lembrou-me a revista de

Longchamps, os louros cabelos irlandeses de miss Shorn, e voltando-me para CarlosFradique:

— Meu caro amigo, um pouco do seu violoncelo, sim? A sala abria sobre os jardins. A plácida respiração do vento fazia arfar as cortinas.



(continua...)

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