Por Eça de Queirós (1901)
Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um pé de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empalidecer, de cansaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago – “muito bonito! Bela terra!” é que voltei os passos para casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação de espargos, e o sítio onde existira a ruína dum velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnífica crônica de D. João I pôr Fernão Lopes, a primeira edição do Imperador Clarimundo, uma Henriada, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e lívido. Cravando nele os olhos inexoráveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei “que iríamos agora ver a tulha”. Mas então, com as mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmúrio de criança:
-Não se me dava de me sentar um poucochinho!
Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrás de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando num abatimento profundo: - “Bela propriedade!”
Consenti generosamente que ele adormecesse – e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotônio, com a parelha ruça. Espreitando da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à pressa as suas pulseiras ricas de topázios.
-Tia Vicência! chegou o D. Teotônio! Felizmente vem sem a filha...Não se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!
XIII
Ai de mim! a festa do meu aniversário não se passou com brilho, nem com alegria!
Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância (onde eu senti as malas de Paris, abertas na véspera) – uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e traspassado, copiosa gravata de seda branca, tufando, e presa pôr uma pérola negra – já todos os convidados estavam na sala -, o D.Teotônio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja – todos de pé, num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras – a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vênus Rústica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe, desses países do Norte onde os Príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silêncio, como se o teto de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde – nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala -, os seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmúrio, “da sua honra, do seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmúrio, “da sua honra, do seu prazer”, foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe, que subira à serra; e as senhoras mais se aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei o D.Teotônio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
-O Sr. Teotônio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira. O digno D.Teotônio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:
-V.Exª chegou diretamente de Viena?
-Não! – Jacinto viera diretamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D Teotônio insistiu:
-Mas certamente visita muitas vezes Viena...
Jacinto sorriu surpreendido:
-Viena, pôr que?... Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
O fidalgo murmurou um lento ah! e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.
Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:
-O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.