Por Coelho Neto (1906)
E referiu toda a cena da Recreio; depois a visita que fizera à casa Botafogo, descrevendo tudo com entusiasmo, muito parcial da irmã, louvando-a, defendendoa. "Fez muito bem. É feliz." Dona Júlia ouvia sem dizer palavra, cabisbaixa, e as lágrimas caiam-lhe dos olhos em grossas bagas. Quando ele anunciou a visita prometida para a noite, a velha levantou a cabeça e cravou nele os olhos, muda e comovida, com espanto.
— Ela vem cá?
— Prometeu. Vem, com certeza; afirmou.
— Eu não devia recebê-la, — disse, ressentida. — Depois do que fez...
— Ora, mamãe.
— Eu é que sei o que tenho sofrido, as lágrimas amargas que tenho chorado. Outra não a recebia. — Levantou-se, ficou um momento parada, indecisa, o olhar perdido e lacrimoso, e repetiu por entre soluços: — Não devia recebê-la.
— Pois é contar com ela logo à noite; e fazer o que eu fiz, se não quer que ela nos deixe de visitar.
— Que é?
— Nada de recriminações. Agora é tarde, o mal está feito e não há remédio.
Estive com ela. Conversamos, mas não lhe fiz a menor censura.
— Violante! — murmurou a velha, como se falasse ao coração. — Enfim...
— Eu volto à cidade, tenho ainda que fazer. Venho jantar. E tenha calma. Hoje a nossa casa deve enfeitar-se como a do velho da parábola no dia do regresso da filha pródiga. Até logo.
Abraçou-a e saiu. Ela ficou encostada à mesa, pensando, a chorar; lentamente, dirigiu-se para o quarto, acendeu a lamparina diante dos santos, ajoelhou-se e, de mãos postas, balbuciou as primeiras palavras de uma oração, mas numa explosão de lágrimas, abateu no soalho e ali ficou, soluçando, com palavras de recriminação e palavras de carinho para a filha ingrata que, afinal, voltava, que ela ia, enfim, rever e beijar.
Nunca um dia lhe pareceu tão longo como esse. As horas arrastavam-se; por mais que buscasse afazeres para distrair-se, volta e meia lá estava na sala a olhar o relógio. Arranjava a casa para receber a filha, trazia vasos de plantas para a sala, sacudia os tapetes, mudava a roupa das camas, num afã satisfeito.
Não podia contar com Felícia, que resmungava enfezada, repelindo visões, bradando furiosamente a seres imaginários, ora na cozinha, ora no quintal, ao sol. A pobre debatia-se lutando com as trevas que se lhe iam adensando no espírito. Por vezes, num momento lúcido, ficava imóvel, pensando; logo, porém, o delírio a retomava e, trabalhando maquinalmente, sempre a murmurar, a esconjurar, sacudiase, esfregava os olhos irritada, aspergia os cantos, a mancheias d'água, sapateando frenética, grugrulhando em desespero crescente.
Atirava punhados de sal ao fogo e desvairada, excitada pela crepitação, bradava expulsando os espíritos, apanhava-os no ar, lançava-os pela porta, injuriando-os, soprando-os, como se fossem leves plumas e, d'olhos altos, acompanhava-os imaginariamente, esconjurando-os.
Dona Júlia começava a temê-la. Quando lhe ouvia os gritos, estrangulados como ganidos, afastava-se, ia para a sala da frente, receando alguma violência, mas a negra não se arredava da cozinha, onde rolava em crises furiosas, escabujando, lutando com as larvas que os seus olhos assombrados descobriam.
Quando Paulo entrou, ao cair da tarde, Dona Júlia insistiu na necessidade de despedir Felícia. Não era prudente tê-la em casa naquele estado. Estava ficando furiosa.
— Hoje não me lembrei do anúncio. Também, com o dia que tive... Amanhã.
— Tu compreendes... eu sozinha em casa com uma doida.
— Sim, tem razão. Fique tranqüila, amanhã arranjo uma criada.
Jantaram. Felícia servia carrancuda, resmungando. Ia até à porta, retrocedia olhando airadamente, murmurando, às vezes rindo.
— Vai, Felícia.
— Uê! Então vosmecê pensa? É assim mesmo. Eles derrubam tudo, derrubam, mas a minha casa é sagrada. Curvou-se, traçou uma cruz na soalho. — Eu não... aqui ninguém bole! Uê!
Lá ia, a dar de ombros, chuchando muxoxos. Rompia a cantar, sapateando diante da fogão. Era necessária chamá-la. Paulo repreendeu-a:
— Que é isto, Felícia? Tu estás doida!
— Doida! Vá falando, vá falando. Vosmecê nem sabe. Eu não... Meu filho é meu filho. Quem foi que me deu ele? Olhe... — mostrava o céu. — Está lá em cima, foi Nosso Senhor. Quem foi que tirou ele? — inclinava-se prestando atenção ao rumor das andas. — Vosmecê esta ouvindo? Não fala não, nhonhô, mar está aí perto, pertinho. O melhor é vosmecê ficar quieto.
À noite, a aflição de Dona Júlia aumentou. Estremecia ao mais leve rumor, o coração batia-lhe precipitado, sentia o sangue fugir-lhe. Quando Paulo bradou da sala: "Está aí Violante", ela quis precipitar-se, correr, mas faltaram-lhe as pernas; levou ambas as mãos ao peito contendo o coração que parecia querer rebentar e foi indo, arrastadamente, já com os olhos rasos de lágrimas.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.